divórcio ou casamento eterno?...

2005-12-27

Apresentação 2

Ainda não tive oportunidade para justificar o título deste blog. Este é o título de um comentário quinzenal que há cerca de 20 anos escrevo num jornal regional católico. E mantive o mesmo título não por falta de outros, mais interpelativos, porque o objectivo é o mesmo: fazer a articulação sempre difícil entre a fé num Deus, que é solidariedade pura, e o compromisso que o cidadão e o crente, nesta sua dupla dimensão, é chamado a ter na construção de um mundo mais à medida da pessoa, de cada pessoa e cada povo.
Um dos desafios que hoje se colocam à vivência da fé católica, num país que herdou a prática religiosa da velha cristandade, é superar uma ruptura profunda, “divórcio” lhe chama o Concílio (GS 43), entre a fé que se diz professar e a vida que objectivamente se pratica. Muitos preferem o quentinho das celebrações litúrgicas, qual Monte Tabor onde “é tão bom estarmos aqui”, ou a frequência mais ou menos inócua de muitas formas de formação e catequese. Mas por aqui se ficam (nos ficamos!) incapazes, por convicção, comodismo ou indiferença, de pôr em prática a exigência do ser discípulo de Cristo: é tão fácil dizer-se cristão e tão difícil ser-se cristão.
É que Jesus Cristo não passou a vida apenas “a fazer o bem”, como sintetizou S. Pedro (Act 10,38), mas sobretudo a questionar, com a palavra mas sobretudo com o gesto e o estilo de vida, a sociedade tão excludente do seu tempo, tão bem retratada nas palavras simples daquela pergunta existencial da Samaritana que assim assume, talvez inconscientemente (como tantos de nós hoje), a sua condição de duplamente marginalizada: “Como é que tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou mulher (primeira marginalização: ser mulher numa sociedade estruturalmente patriarcal e machista) samaritana (segunda marginalização: estrangeira e “ateia” no sentido de que não tem as mesmas mundividências que eu)?” (Jo 4, 9).
Este estilo de vida de Jesus – de denúncia continuada de tudo o que violava a dignidade da pessoa: “o sábado foi feito para o homem e não homem para o sábado” (Mc 2,27) – acarretou-lhe a morte porque os sumos sacerdotes, que rapidamente diagnosticaram o problema, concluíram “ou ele ou nós” e, portanto, a decisão não podia ser outra: “que ele morra” para que o sistema possa continuar imperturbável (cf Jo 11,47-50).
É grande a urgência e o drama desta questão que poderia chamar de “privatização da fé” pelos próprios crentes. Parafraseando uma ideia de J. Lois Fernández, diria que a partir de uma concepção dualista e a-histórica muitos fazem um sequestro da dimensão incarnada da mensagem cristã e de todas as suas implicações sociais e políticas. E não são apenas as “pessoas simples” mas também e sobretudo as “pessoas bem colocadas na vida” que vêem a sua situação posta em causa pela radicalidade da mensagem evangélica e, portanto, estão muito mais interessadas em manter a ordem estabelecida que tanto os favorece do que em ser fiéis às exigências radicais de Jesus Cristo.
Mas basta de justificações!

4 Comentários:

Anonymous Lena disse...

"É que Jesus Cristo não passou a vida apenas “a fazer o bem”, como sintetizou S. Pedro (Act 10,38), mas sobretudo a questionar, com a palavra mas sobretudo com o gesto e o estilo de vida, a sociedade tão excludente do seu tempo,..."
Até me sinto de algum modo constrangida a fazer qualquer comentário, mas esta questão de não nos questionarmos, de sistematicamente arranjar bodes expiatórios para justificar tudo, sem que nos sintamos implicados, é o que mais me tocou nesta tua apresentação.
Não sei como será entendido um blog deste tipo, nem quais os tipos de pessoas que nele irão colaborar, mas parece-me fundamental até porque excluimos das nossas conversas, reflexões, análises diárias, temas como a religião (até parece que temos receio de cair no ridículo se afirmarmos que somos cristãos) e como ela está intimimamente ligada ao nosso viver quotidiano. Acho que, tal como Salazar conseguiu incutir que a política era só para entendidos ou «iluminados», a religião, ou se quiseres, a nossa relação com Deus (ou com o transcendente)também ficou castrada dentro de cada um de nós e separada do nosso dia-a-dia. Religião é identificada com padres, e portanto é assunto que a eles diz respeito.
Neste sentido, parece-me fundamental abrirmos o postigo e partilhar algo que, eventualmente, temos andado a chutar para canto, consciente ou inconscientemente.
Porquê afirmar-se que se é ateu, agnóstico quase dá estatuto, reconhecimento, ao passo que afirmar-se que se é cristão suscita juizos quase sempre ridículos ou depreciativos?
Tu escancaraste a janela; com este gesto muitos de nós seremos ajudados a abrir-mo-nos (primeiro para dentro) e finalmente o postigo mostrará que este é um tema fundamental na vida de cada de um e, como tal, necessário partilhá-lo.

28/12/05 04:59

 
Blogger Zé Dias disse...

Lena
Também eu estou com alguma curiosidade sobre o modo como este blog poderá ser entendido.
Manifestamente este é um tema pouco politicamente correcto e quando se aborda aborda-se geralmente numa perspectiva soft, não indo às questões de fundo, porque reflectir a sério está temática envolve consequências que têm (ou deviam ter) muito a ver com o estilo de vida que temos. E nenhum de nós gosta muito de ser questionado ou de questionar o modo como vive.
A sociedade de consumo está muito mais interessada em ter consumidores do que cidadãos.
E os crentes, concretamente os católicos, sentem-se muito bem neste estilo de sociedade, pouco preocupados, a não ser intelectualmente, com uma organização social onde pontifica a desigualdade, a exclusão, a falta de solidariedade, etc.
Por isso, só pelo teu comentário já valeu a pena abrir este espaço.

29/12/05 13:48

 
Anonymous António Simões disse...

É com imenso prazer que passo pelo teu Blog e te felicito.
Não tenho o teu dom e escrevo mais sobre as minhas formas de ver as coisas nesta sociedade canívora, procurando atirar ideias que possam servir para outros reflectirem, eàs vezes também para mim próprio.
A tua Fé e Compromisso, serão certamente diferentesda minha e do meu. Cada um calcorreia as suas pedras da calçada. Mas todos diferentes, todos iguais.
procurarei passar por aqui sempre que puder à procura de algo que me falta e, possivelmente nunca encontrarei - a plena realização.

14/1/06 00:30

 
Blogger Zé Dias disse...

Cada um tem o seu caminho, porque somos "únicos e irrepetíveis" (João Paulo II). Por isso, ao partilharmos os diferentes caminhos só nos enriquecemos e nos estimulamos na caminhada para a meta comum mas por trilhos diferenciados: a realização pessoal como base para a realização de um mundo mais à medida da pessoa.

14/1/06 15:50

 

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