divórcio ou casamento eterno?...

2008-04-17

Filosofando...

Regressei já a casa há mais de oito dias, mas só agora me dispus a passar por aqui.
Gostaria de fazer alguns comentários, mas por hoje quero apenas partilhar o meu artigo para o Correio de Coimbra sobre o exercício político. Não referi outros exemplos porque são suficientemente ridículos (embora destrutivos) para não lhes dar demasiada divulgação.

ESTA ARTE NOBRE E DIFÍCIL
Estas palavras, com que o Concílio quis manifestar o seu respeito e admiração pelo exercício da política (GS 75), apresentam-se hoje em vivo contraste com a realidade.
Efectivamente nunca o exercício político terá tido uma imagem tão degradada. Não é difícil encontrar razões para tal situação. Sem pretender enumerá-las todas ou hierarquizá-las, aqui ficam algumas. A globalização, nas suas características actuais, privilegia o primado do económico sobre o político: as empresas deslocalizam-se depois de terem sugado as mordomias que os Estados de origem se viram forçados a conceder-lhes para outras regiões onde a mão-de-obra garante maiores lucros. E o poder político parece ficar manietado. Não haverá nada que possa ser feito em prol do primado do político sobre esta ditadura do económico? Este eclipse do Estado é um factor fortemente negativo para a sua afirmação pública. Depois, o político é um campo em que as decisões nem sempre funcionam como se desejaria e os seus resultados se arrastam. Não é fácil mudar mentalidades por decreto e as reformas, sempre pedidas, implicam mudanças de vida para as quais poucos estão disponíveis. Em terceiro lugar, a política é o lugar por excelência do compromisso, o que numa sociedade maniqueísta não é muito fácil de entender, aceitar e praticar. A propósito de negociações recentes falou-se em vitória e derrota, mas nunca de acordo, quando muito de entendimento. Até parece que os intervenientes nestes processos políticos têm receio de assumir a cidadania como um exercício de diálogo e de cedências mútuas orientadas pelo serviço do bem comum e não como um campo de batalha onde cada um guarda zelosamente o seu território e onde a cedência aparece com um acto de cobardia indigno da pessoa. E, sobretudo quando uma sociedade é doentiamente corporativista, estes tiques reptileanos agudizam-se ainda mais.
Depois vem as palavras verdadeiramente autofágicas dos políticos com responsabilidades graves na degradação da sua imagem: por exemplo, as contínuas acusações de mentiroso e incapaz de cumprir promessas. É quase ridícula esta falta de bom senso (e de inteligência?): é que, quando acusam os seus adversários de partido mas colegas de profissão, os políticos estão a acusar-se também a si próprios e sobretudo à sua classe desses mesmos vícios e defeitos. E o que passa para a opinião pública é essa auto-avaliação, feita pelos próprios envolvidos.
Mas para lá das palavras, cada vez mais desvalorizadas, há também os comportamentos. E bastará lembrar dois ou três casos recentes. O caso de Jorge Coelho e a Mota-Engil é mais um elo numa longa cadeia que justifica o sábio ditado popular com tudo o que tem de injusto: “melhor que ser ministro é ter sido”. Como se sabe, não é caso único, o que agrava a situação. Mas sempre que acontece um caso destes fica sempre a dúvida: estes convites são para pagar favores antigos ou para garantir favorecimentos futuros. Claro que o problema é complexo: Deverá um ex-ministro ser impedido de trabalhar onde lhe surgir a oportunidade? Esta limitação não o irá prejudicar como cidadão? Bastará legislar e estabelecer um “período de nojo”? Mas o problema de fundo não está no tanto no ser ilegal mas na esfera do ético. E à lei não compete legislar sobre os domínios da ética mas sob o império da ética, pois a prioridade é da ética.
A afirmação de um ilustre deputado de que “o casamento se baseia em afectos e não em deveres” é uma afirmação preocupante: naturalmente que cairá bem a muita gente. Mas numa sociedade, onde só se fala de direitos e nunca deveres, esta afirmação vem reforçar mais esta falha. Não é possível viver numa sociedade só fundada em direitos. Já João XXIII recordava que esquecer os deveres é como que "destruir com uma mão o que a outra vai construindo" (PT30). Fazer uma afirmação destas como justificação de uma proposta partidária, neste caso do PS, é um péssimo contributo para a construção de uma sociedade que se quer justa e solidária.
Finalmente, com o recente aumento do salário mínimo, os grandes beneficiados foram, imagine-se, os partidos que viram o seu subsídio crescer acima da média. Isto é, os mais pobres e os partidos foram os que tiveram o maior aumento, bem acima da inflação. Que os pobres tenham uma discriminação positiva está muito bem e até deveria ser maior, pois trata-se de uma exigência de justiça social. Mas os partidos!?
Dir-se-á que estes são três exemplos ridículos. É sintomático que alguém assim pense, mas sejam ou não, são sobretudo sinais de uma mentalidade vigente, mentalidade esta que vem ainda deteriorar mais a imagem dos políticos e por arrastamento, do exercício político, que dada a sua exposição mediática, deveria ser o primeiro exercício de cidadania.
“Aqueles que são ou se podem tornar capazes de exercer a arte, simultaneamente tão nobre e difícil, da política, preparem-se para ela e procurem exercê-la sem pensarem no interesse pessoal e nas vantagens materiais. Lutem com integridade e prudência contra a injustiça e a opressão, contra o absolutismo e a intolerância, quer de um só homem, quer de um partido político; dediquem-se, na actividade política, ao bem de todos com sinceridade e rectidão, com amor e coragem” (GS 75).

2008-03-30

Oitava da Páscoa

Há dois meses que aqui não venho.
O principal culpado foi uma operação que tive de fazer ao pulmão direito.
A recuepração foi um pouco lenta e os momentos livres dediquei-os a uma Antologia que estou a preparar de textos da Patrística relacionados com a doutrina social da Igreja.

Como vou ser internado esta segunda-feira para mais uma operação agora ao pulmão esquerdo, vim aqui só dar uma espreitadinha e dizer um olá aos que porventura ainda aqui venham dar uma vista de olhos.

E aproveito para deixar o artigo que mandei para publicação no Correio de Coimbra e Notícias de VIla Real, resultante da minha reflexão sobre o que os relatos da Paixão nos (me) poderiam inspirar.

E até à próxima. Espero que não sejam dois meses de ausência!

ESCÂNDALO E LOUCURA

Estas conhecidas palavras de S. Paulo (1Cor 1,23) resumem a dificuldade com que se depararam as comunidades primitivas para vencer a dupla incredulidade que resultou da morte de Jesus. Para os judeus era inconcebível (um escândalo) que Deus morresse na cruz. Para os pagãos era inaceitável (uma loucura) que um homem fosse Deus, muito menos, um homem condenado a um suplício aplicado sobretudo a escravos, ladrões e outros representantes do sub-mundo humano.
Contudo, estas palavras continuam, parece-me a mim, a ser hoje de algum modo actuais.
Os crentes notam hoje escândalo e loucura num mundo que vive como se não existisse (um) Deus e que não precisa de nenhuma causa inicial e exterior a si, ou no homem que se julga omnipotente, que não se preocupa em saber donde vem nem para onde vai, que tem (tinha?) uma fé absoluta na sua inteligência com explicação para tudo. E, contudo, a história mostra o contrário. Há pouco mais de cem anos, dizia-se aos alunos de Física para se dedicarem a outras matérias porque nesta área estava tudo descoberto. E, no entanto, bastaram três fenómenos insignificantes (espectro do hidrogénio, efeito fotoeléctrico e radiação do corpo negro) para desmoronar tudo e obrigar a encontrar novas teorias. E hoje essas explicações já não servem e precisamos de outras. E depois de outras… e outras. Por isso, não foi com surpresa que encontrei, num livro recente sobre “os próximos 50 anos” da ciência, várias vezes a palavra “humildade ” ou “afinal de contas somos humanos e não anjos e da mesma forma que existem coisas que somos capazes de perceber, devem existir outras que não somos capazes de entender… porque não somos suficientemente inteligentes para perceber tais coisas. Podemos estar como cães a tentar perceber análise matemática”.
Mas também há, não digo, escândalo e loucura mas algo de pouco compreensível entre nós, que lemos a Bíblia particularmente os relatos da Paixão e passamos por estes textos, recusando-nos a aprender o que nos ensinam todos aqueles intervenientes. A ajuda das nossas catequeses e homilias também não é muita!
Tão prontos que nós somos a condenar Judas, aquele traidor tão infame que só “merecia” acabar nos ramos de uma figueira. E não pensamos em quantas vezes trocamos o nosso Deus pelo dinheiro, que comanda muito mais a nossa vida que a fé em Jesus: vivemos para o ter, para o gastar, para o guardar. Adoramo-lo em vez de o usarmos como instrumento da nossa realização autêntica, da nossa partilha com os mais necessitados, do nosso contributo para uma sociedade mais justa. E no entanto “ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6,24). Quantos de nós que vamos comungar ao domingo não somos autênticos Judas!
Nós os “bem-comportados” olhamos os ladrões crucificados como a ralé da sociedade. Nós, que vamos à missa ao domingo, não nos drogamos, não roubamos, nós os auto-suficientes da moral humana (que não da do Sermão da Montanha!), não podemos misturar-nos com esses ladrões, prostitutas e publicanos. E, no entanto, esses serão os primeiros no Reino dos céus (Mt 21,31). Não estará Jesus a virar tudo do avesso: aquela gentalha à nossa frente no Reino de Deus? Não é possível! Aquele ladrão, que “estarás comigo hoje no paraíso” (Lc 23,43), ainda vá! Mas porque tivemos de inventar o chavão de que ele era “o bom ladrão”!
Para ajudar Jesus a levar a cruz teve que ser requisitado um anónimo Cireneu, porque os discípulos não estavam lá. Foi o que aconteceu ao longo da história. No início, os cristãos morreram pela liberdade de consciência. Depois, durante séculos, estivemos na vanguarda. Finalmente, adormecemos à sombra do poder e da nossa organização humana, e, embora atentos aos pobres, ficámo-nos pela salvação das almas e fomo-nos esquecendo de ajudar as pessoas a serem mais felizes já aqui e de lutar contra as injustiças deste “vale de lágrimas”. Então, porque deixámos de ser sinal e instrumento de Deus na construção de um mundo novo, Deus, que “não faz acepção de pessoas” (Act 10,34), teve que chamar os Galileus, os Darwins, os Marxs, os Freuds e outros tantos Cirineus que ajudaram a avançar a história, embora nem sempre como Ele quereria. Mas, por Sua expressa vontade, a história sempre se irá construindo num diálogo dialéctico entre a vontade, infinitamente bondosa, de Deus e a vontade, finitamente ambígua, dos homens.
Quantas vezes temos sido Pedro a negar a nossa condição de discípulos de Jesus. Vamos à missa, até assinamos uns abaixo-assinados contra o aborto, mas depois a nossa vida familiar, profissional, social e a nossa atenção ao outro, que sempre é Cristo, não é confirmação convincente daquilo em que acreditamos. “O divórcio entre a fé e a vida é um dos mais graves erros do nosso tempo” (GS 43; cf. EN 20).
Depois vieram as exigências físicas de Tomé e os discípulos de Emaús que não reconheceram Jesus. Também nós passamos o tempo com lamentações, por vezes mais que os outros. Temos muita dificuldade em perceber que não bastam os olhos da cara ou da inteligência, mas que são precisos os olhos da fé para, em tempos de crise, testemunhar, na esperança e na alegria, a proposta libertadora de Jesus Cristo.
Mas será que temos fé ou que temos fé suficiente? Ou não passamos de homens de pouca fé (Mt 8,26) que cada vez a vamos degradando mais, de tal modo que o próprio Jesus nos deixou este desabafo terrível: “Quando o Filho do Homem voltar encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18,8).
“Já que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo” (Col 3,1). Aspiramos mesmo?

2008-01-28

Sociedade atabalhoada

As recentes declarações do bastonário da Ordem dos Advogados vieram chamar a atenção para aquilo que muitos pensamos mas não temos nomes nem dados concretos para ter a coragem de falar. Não sei se o modo que ele utilizou é o mais adequado numa sociedade onde particularmente os advogados conhecem bem os mecanismos legais para fazer avançar estes processos sempre difusos e difíceis de clarificar.
De qualquer modo, disse-o e como figura pública colocou a questão e a necessidade de clarificar muita coisa que é bom que seja clarificada em nome da transparência e da cidadania.
Vamos ver o que se segue.
De qualquer modo, este estado de coisas vai-se mantendo e degradando porque somos uma sociedade onde poucos assumem a sério o seu trabalho e o seu compromisso cívico. Há dias publiquei no Correio de Coimbra uma crónica onde classificava a nossa sociedade como sociedade atabalhoada, e nesta situação todos somos culpados: uns por acção, outros por demissão.
Aqui reproduzo esse meu comentário.

ATÉ CIMA… ATÉ CIMA!
Os balanços do fim de ano preocupam-se geralmente com as grandes questões e estão demasiado centrados em perspectivas partidárias ou ideológicas. No entanto, estes factos demasiado brilhantes no céu dos comentários podem ofuscar realidades aparentemente insignificantes mas talvez com uma maior influência capilar no evoluir da sociedade.
Olhando para a nossa actual maneira de ser, diria que nos falta uma cultura do “fazer bem”. O que fazemos, faz-se muitas vezes como calha, atabalhoadamente, sem preocupação por fazer bem feito. Um simples exemplo: já precisei de chamar um técnico para um pequeno trabalho que implicava furar uma parede ou colocar um cabo eléctrico. E verifiquei o seguinte: uns faziam o trabalho, recebiam e iam-se embora; outros, poucos e sobretudo se já caminhavam para a terceira idade, antes de receber, pediam uma vassoura e limpavam o chão. Não se trata de tempo, pois este último exercício demorava meio minuto, um minuto. Trata-se de uma cultura diferente e que se vai perdendo: fazer bem feito o que se faz. Age quod agis , “o que fizeres fá-lo bem feito”já diziam os Romanos.
Claro que esta cultura do “fazer bem feito” implica disciplina interior, capacidade de resistir à tentação de considerar um trabalho apenas no seu aspecto imediato (fazer o furo na parede e passar o fio), ignorando as suas consequências (limpar o lixo que o furo produziu).
Esta exigência interior é primeiro que tudo uma exigência comigo próprio. Sem ela não é possível construir uma sociedade mais humana, pois a sociedade é antes de mais o resultado do esforço pessoal e comprometido de todos os cidadãos.
E só tendo este estado de espírito poderei ser exigente com os outros. Ora o que verificamos é que muitas das nossas chefias não têm para consigo próprias esta exigência, pelo que não podem passá-la para os seus serviços e muito menos motivar nesse sentido os seus funcionários. Talvez por isso, deixou de haver brio em ter um serviço com qualidade, isto é, capaz de “fazer bem” aquilo que lhe compete. No entanto, um serviço competente é mais eficiente, mais acolhedor, mais capaz de responder às necessidades do bem comum. É mais produtivo e com menores custos porque reduz erros e repetições desnecessárias, onera menos cada um dos funcionários e cria um bom ambiente porque todos fazem bem o que lhes compete, serve melhor os cidadãos porque dá uma resposta mais rápida e eficaz. Por tudo isto é fácil concluir que esta atitude é uma condição indispensável para a aplicação da justiça social. É, pois, não só um exercício de cidadania mas de justiça e de respeito pelos direitos do outro.
Portanto, esta exigência aplica-se a todos os cidadãos, incluindo naturalmente deputados e ministros. Embora uma das funções dos governos seja criar as condições para que todos “façam bem”, quantas leis e quantas medidas parecem ou são atabalhoadas, retirando credibilidade a quem as fez, facilitando o seu incumprimento e pondo em causa a construção do bem comum. Veja-se a recente lei do tabaco e as movimentações oportunistas para fugir a ela. A própria aplicação da lei é por vezes atabalhoada e discriminatória: crianças são tiradas aos pais afectivos e entregues aos parentes biológicos sem ter em conta a sua fragilidade e saúde psicológicas; uma figura pública prevaricadora tem, por norma, um tratamento diferente da do cidadão comum. A primeira vítima é manifestamente o cidadão discriminado. Mas também a justiça social sai gravemente lesada.
Este exercício de “fazer bem feito” adquire para os cristãos uma importância teológica suplementar mas estruturante. M. Quoist gosta de contar a história de uma militante da JOC que fazia assim a leitura do episódio das bodas de Caná: “Penso nos criados: se eles não tivessem feito bem o seu trabalho, quer dizer, enchido as tulhas “até cima”, como explica o Evangelho, Jesus teria feito menos vinho. Assim, durante a minha semana, quando me vem a vontade de atabalhoar um trabalho, repito a mim mesma “até cima… até cima!” para que, deste trabalho e do meu esforço, Jesus possa fazer bom vinho”. Isto é, só quando cada um de nós fizer bem o seu trabalho é que Deus pode cumprir em plenitude o seu. Pode parecer estranho, mas Deus quer precisar de nós para construir a história e para O tornar visível entre as pessoas.
Infelizmente esta cultura não se cria por decreto. Infelizmente também não se ensina hoje, não se exige hoje e não se testemunha hoje. É urgente, portanto, que os pais, os professores, os catequistas, a comunicação social falem disto, insistam, lhe dêem a importância que ela tem. É preciso fazer campanhas como as dos tempos eleitorais ou da luta contra o tabaco ou na educação rodoviária. Deve começar em casa, mas continuar nas escolas, nos grupos culturais, nas Igrejas de modo a ser tão natural como o ar que respiramos. Ou se transforma num hábito ou não funciona.
Não sei quantificar a influência no PIB, no défice e nesses parâmetros tão acarinhados pelos políticos, mas uma sociedade de atabalhoados é uma sociedade atabalhoada, sem objectivos, onde cada um trabalha ao seu ritmo, deixando o trabalho inacabado, a sobrar para os outros.
O cidadão assim (e são tantos) atrasa a construção de uma sociedade justa. Um cristão assim (e são tantos) atrasa a chegada do Reino de Deus. Por isso, o anjo do Senhor é tão violento com ele: “porque és morno – nem frio nem quente – vou vomitar-te da minha boca” (Ap 3,16).

Mundo louco

Finalmente, Olmert acabou com a sua medida, verdadeiro crime contra a humanidade, de cortar energia aos palestinianos. Bem sei que aquela região só parece saber a linguagem das armas, mas condenar uma sociedade civil a morrer de frio é uma atitude que me apetecia classificar de nazi, mas pela negativa: enquanto os nazis davam gás aos judeus para os matar; Olmert corta o gás para matar de frio os palestinianos.
Com os povos esquecem tão rapidamente as lições da história!

Li no Público que o New York Times, no obituário de Suharto, nas quatro páginas que lhe dedicou não encontrou espaço para recordar os seus massacres. Com a excepção de uma linha dedicada ao massacre dos timorenses, esqueceram-se dos cem mil presos políticos sem julgamento, logo no início do seu mandato, dos quinhentos mil a um milhão de indonésios assassinados, de um sexto da população da Papua Ocidental eliminada, para lá dos regulares massacres em Aceh. Depois há ainda os 30 mil milhões de dólares desviados das ajudas ocidentais para as suas contas privadas.
Foi ele um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento económico da Indonésia. Vários outros exemplos deste tipo se poderiam apontar o que pode levar à inaceitável conclusão de que só pode haver desenvolvimento, sobretudo nos países do Terceiro Mundo, regado pela violação dos direitos humanos.
E no entanto o desenvolvimento para ser autêntico não pode ser só económico, mas sim integral (da pessoa em todas as suas dimensões) e solidário (não discriminando nem excluindo ninguém, pessoas e povos).
Não é fácil, mas só assim será verdadeiramente humano.

2008-01-17

lei do tabaco (2)

Peante a avalanche de acontecimentos mediáticos, que nos têm atropelado nestes últimos dias, a lei do tabaco vai já a milhas. Este ambiente alienante onde tudo rapidamente se esquece, numa sociedade sem grande consciência cívica e quase nula capacidade de didadania, permite o desenvolvimentos de riscos e ameaças que se não são cortados cerce logo no início podem conduzir a situações graves futuras.

Depois do meu anterior comentário, pessoa amiga fumadora, deu-me a ler um dos muitos artigos, neste caso de um fumador. Este artigo (do M. Esteves Cardoso?) levanta algumas questões interessantes, nomeadamente quanto à dificuldade dos fumadores "sobreviverem" nos locais de trabalho. Em conversas que fui tendo, choquei com uma questão em que nunca pensara: como vai dar-se, na escola, a convivência dos professores já que os fumadores deixam de ter espaço, mesmo no interior do seu carro, para fumar? ou nos hospitais? ou nos serviços públicos?
De qualquer modo, para o autor do artigo trata-se, como para muitos fumadores, de um mero problema de liberdade.
Ora a liberdade é um conceito que aqui ajuda pouco. Porque é um conceito relativo: a minha liberdade acaba não onde eu quero ou desejo, mas onde começa a liberdade do outro. Por aí penso que não se irá muito longe...

O problema pode ser muito mais sério do que as potenciais ameaças à liberdade. É que já começa a haver exemplos discretos da violação ou potencial violação de direitos fundamentais. Segundo li, a TAP no recrutamento de hospedeir@s coloca como terceiro critério ser ou não fumador, a Unicef não contrata fumadores, o Serviço Nacional de Saúde inglês dá prioridade aos não fumadores. Ora isto é inaceitável. Uma coisa é tentar regular, melhor ou pior, o exercício de fumar; outra é retirar direitos fundamentais por causa da qualidade de fumador.
Para além disso, a saúde é um âmbito onde os fundamentalismos facilmente ganham raízes. É bom,pois, que todos, fumadores e não fumadores, estejamos muito atentos a possíveis interpretações, que facilmente deslizam para abusos e rapdamente caem em violações dos direitos humanos.
E aqui estamos todos do mesmo lado da barricada. Melhor, deveríamos estar.

2008-01-07

lei do tabaco

Como não fumador congratulo-me com uma lei que pretende dar espaço para todos embora não onde todos querem.
Era urgente regulamentar esta situação, porque os não fumadores não têm que ser obrigados a fumar. É também um direito que lhes assiste.
Quanto aos comentários que ouvi pareceram-me equilibrados. Mas o que achei mais divertido foi o daquele fumador que perguntou por que não se proibem também os carros de circular. Não sei qual seria a sua reacção se o proibissem de andar de carro. Mas quanto à sua proposta parece-me que pelo menos deviam ser proibidos de circular os carros que não tem os recursos técnicos já existentes e os que forem sendo sucessivamente introduzidos para reduzir ao mínimo a sua capacidade poluir.
Pois esperemos que a lei seja sabiamente aplicada e que não apareçam os chicos espertos a dizer que nos casinos e nas discotecas se pode fumar à vontade, baseado no argumento de que o jogo estava acima d(est)a lei ou de que às discotecas só vai quem quer.
É urgente desmontar a mentalidade nacional que insinua que a lei é para os outros e só para mim quando serve os meus interesses.
Um bom ano novo para todos com muita aegria, paz, amor, saúde e para os que dela precisam graça de Deus.

2008-01-04

Férias de Natal

Este tempo de Natal ocupa-nos demasiado o tempo e não permitem algumas coisas interessantes, como uma visitinha ao blog.
Da minha parte tive, além do Natal e do fim de ano, como todos, os anos da minha mãe (88), o aniversário da morte do meu pai, o lançamento de um livro de poesia do meu irmão. E eu, além disso, ainda passei algum tempo em baixo de forma.
Por isso, só hoje voltei e para recordar duas passagens da Mensagem do papa para o Dia Mundial da Paz.

1º. “Numa vida familiar «sã» experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs; a função da autoridade manifestada pelos pais; o serviço carinhoso aos membros mais débeis, porque pequenos doentes ou idosos; a mútua ajuda nas necessidades da vida; a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz” (3).

2º. “Respeitar o ambiente não significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem; quer dizer antes não a considerar egoisticamente à completa disposição dos próprios interesses, porque as gerações futuras também têm o direito de beneficiar da criação, exprimindo nela a mesma liberdade responsável que reivindicamos para nós. Nem se hão-de esquecer os pobres, em muitos casos excluídos do destino universal dos bens da criação” (7).
Aqui queria sobretudo destacar o paralelismo entre o pensamento do Papa e a grande reocupação do PNUD 2007/2008, que diz logo a abrir: “As alterações climáticas exigem neste momento uma acção urgente para lidar com uma ameaça a dois grupos de eleitores com fraca voz política: os pobres do mundo e as gerações futuras” (p. 2)

2007-12-24

Natal:tempo de proximidade

Dos meus tempos longínquos de ilusão de que poderia ser Presidente da República ou cardeal de Lisboa, ficou-me apenas o tique de, nesta quadra, mandar uma "Mensagem de Natal" aos meus amigos. Posteriormente essa necessiade acentuou-se a partir do momento em que, em casa, decidimos substituir as prendas absolutamente inúteis que "tínhamos" de dar aos amigos para mostrar que éramos... seus amigos e resolvemos juntar esse dinheiro e oferecê-lo às Irmãs Adoradoras, uma instituição de apoio a raparigas em risco.
Já viram a nossa figura nos primeiros anos quando os amigos vinham na sua "visita de médico" ( às vezes nem se sentavam: no Natal há muita gente a visitar e o ano não dá tempo para mostrar a nossa amizade mais calmamente), apresentavam os seus presentes e nós nada, ficávamos de braços a abanar, meios enfiados, sem coragem para assumir corajosamante a nossa decisão de dar aos mais pobres o que os amigos não precisam.
Foi, então, que pondo a imaginação a funcionar, nos agarrámos à mensagem natalícia E assim passámos para uma situação menos constrangedora: ao gordo cabaz de prendas dos amigos respondíamos com um ridículo envelope fechado com uma mensagem. E assim convencemos os amigos que nos chegavam as palavras de carinho. Há, no entanto, alguns que se interrogam se esta atitude não é anti-solidária: ao contribuir para um abaixamento de consumo interno estamos a pôr em perigo alguns postos de trabalho. Talvez. Mas para nós há um perigo maior que é preciso vencer: o consumismo exagerado. As soluções laborais terão de passar por outros caminhos, mais criativos, mais solidários e mais respeitadores da dignidade human. Além disso, o tão massacrado ambiente agradece vivamente soluções mais "furgais".
Este Natal vou partilhar com todos os bloguistas a mensagem que preparei para os meus amigos.

MENSAGEM DO NATAL DE 2007
Diz Bento XVI que “a grandeza da humanidade se determina essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre” (SS 38). Aceitar e acolher o outro que sofre é assumir o seu sofrimento de tal modo que ele se torne também o meu. O bom samaritano é disso exemplo claro. Certamente que foi necessário que ele parasse à beira do caminho, se aproximasse, visse fisicamente o que se passava. Mas isso fazem quase todos os mirones quando há um acidente. Tudo isto é necessário, mas não é suficiente. O essencial, a viragem existencial, aconteceu quando ele viu com o coração, quando ele se comoveu e ficou tomado de compaixão (“sofrer com”) pelo outro. A partir daí, os negócios da sua vida passam a segundo plano e rendem-se à urgência de cuidar daquele desconhecido que sofre; ao comover-se converteu o desconhecido em próximo, em irmão e tratou dele de acordo com esta sua nova condição. “Precisamente porque agora se tornou sofrimento compartilhado, no qual há a presença do outro, este sofrimento é penetrado pela luz do amor. A palavra latina con-solatio, consolação, exprime isto de uma forma muito bela sugerindo um estar-com na solidão, que então deixa de ser solidão” (SS 38).
É por isso que, apesar dos bairros de lata, dos sem abrigo, das violações dos direitos das pessoas e dos povos, devemos celebrar e cada vez mais o Natal. Porque com ele celebramos o momento histórico em que Deus, consolador, promissor e libertador, desceu à terra para se fazer próximo de cada um de nós para que cada um de nós se faça próximo de todos os outros, homens e mulheres. Ele fez o seu papel: tornou-se o primeiro “bom samaritano”. Nós é que falhámos e por isso temos o mundo que temos: ainda não quisemos responder honestamente à questão “quem é o meu próximo?”.
Foi, talvez, por isso, que Kierkegaard disse que a noção de próximo é a novidade radical introduzida pela Revelação cristã. Foi, talvez, por isso que S. Paulo falou tão pouco de solidariedade: a solidariedade máxima foi/é a incarnação de Deus que quis “armar a sua tenda” no meio de nós, para que todos, sem excluir nem privilegiar ninguém, tenhamos a vida e a tenhamos em abundância.

2007-12-16

Pastoral erótica

Aí vai o segundo artigo sobre a renovação da Igreja em Portugal.
Peço mais uma vez, sobretudo aos cristãos, mas seria óptimo que outros cidadãos quisessem também participar, que façamos deste espaço um debate sério, profundo e criativo sobre a Igreja em Portugal. É este o único objectivo do texto que se segue, bem como do anterior, com o qual em profundas ligações.
Como já lhes disse, vou estar algum tempo fora, mas pedireir à minha filha que me vá informando do andamento debate: como vêem, sou um optimista inveterado!!!



PASTORAL ERÓTICA
A expressão não é minha. Mas veio-me à memória para ilustrar a minha reflexão de hoje, na qual pretendo continuar o meu contributo para a renovação profunda da nossa Igreja, que Bento XVI propôs aos nossos Bispos e através deles a todos nós: uma pastoral do inesperado, do atractivo, que mobilize a atenção do ouvinte, como Jesus fazia tão bem.
Com esta expressão estou a pensar apenas na qualidade que deveria ter a nossa patoral: sedutora, irresistível, “bem apresentada”, capaz de estimular o desejo de ser aceite. Se nós, os cristãos, não formos capazes de seduzir, de interpelar, de cativar com a palavra e sobretudo com o testemunho, como poderemos proclamar credivelmente o nosso Deus? Ora a nossa pastoral, como já aqui referi algumas vezes, é demasiado “soft”, isto é, pouca “agressiva”: mais verniz superficial que actuação em profundidade (EN 20), mais interessada na quantidade que na qualidade (EN 19), pouco preocupada em conseguir um homem novo (EN 18), com bastante dificuldade em fazer uma leitura profética dos sinais dos tempos (GS 4).
Mas para tal confrontamo-nos com alguns problemas de fundo.
Precisamos, em primeiro lugar, de acreditar realmente no projecto de Jesus Cristo, porque “o pior não é o vazio numérico, mas o vazio interior que sente uma Igreja sem autoestima, sem rumo, sem projecto” (Bautista). Sem um “novo ardor” (João Paulo II), sem o “fervor dos santos” (EN 80), vivemos na defensiva, amargurados pelo complexo da perseguição, refugiando-nos num atitude dogmática e apologética ou mesmo de guetto. Assim não é possível o diálogo com o mundo de hoje e a nossa credibilidade irá de mal a pior. Sentimos orgulho em ser cristãos? Sentimos / sinto uma alegria tal que seria capaz de vender tudo para comprar o campo que tem a pérola (Mt 13,44)? Sentimos / sinto a alegria do carcereiro de Paulo que teve de fazer uma festa para celebrar a sua conversão (Act 16,34)? Ser cristão faz parte da nossa / minha identidade ou é um apêndice que tenho receio de expor? É que ninguém convence se não estiver convencido.
Um segundo aspecto é que temos de mudar profundamente. Todas as comunidades têm de “assimilar o essencial da mensagem evangélica e de a transpor, sem a mínima traição, para a linguagem que os homens entendam… no campo das expressões litúrgicas, na catequese, na formulação teológica, nas estruturas eclesiais secundárias e nos ministérios” (EN 63). O mundo em que vivemos mudou muito e não podemos continuar prisioneiros de conceitos e linguagens do passado, o que nos faz correr o sério risco de sermos incompreensíveis para as pessoas de hoje. É que “as ideias da nossa espiritualidade e o vocabulário das nossas orações remontam a muito mais de dois mil anos, que os nossos conceitos teológicos levam quase sempre a marca ou até a estrutura íntima elaborada na Patrística e na Idade Média, que a nossa estruturação comunitária e os modos de governo têm uma antiguidade semelhante”. Superar tal desfasamento é “uma tarefa global, de dimensões imensas, que implica a reconfiguração da oferta cristã toda!”. O que só será possível com a colaboração de todos e, mesmo assim, “impõe-se contar com o tempo e a paciência necessários para a maturação dos projectos, para a ruptura das inércias, tanto institucionais como conceptuais” (Queiruga). Depois, das revoluções cosmológica (heliocêntrica), com Galileu, sociológica, com Marx, biológica, com Darwin, psicológica, com Freud, informática, com a Net, e depois também do Vaticano II, não seria já mais que altura para renovarmos os suportes intelectuais dos nossos principais formadores?
Já não bastam rectificações pontuais, ajustamentos de linguagem ou vontade sincera de diálogo. Estamos numa outra cultura, num outro tempo, mas que é uma cultura e um tempo que é o nosso. Somos chamados a ser cristãos de hoje e não da Idade Média. Seria uma traição ao Evangelho querer vivê-lo com categorias medievais, pois cada tempo é chamado a viver segundo o seu tempo. O mundo está em permanente evolução e a Igreja não pode querer responder aos tempos de hoje com respostas de ontem: o vinho é sempre novo; mas os odres continuam velhos.
Um outro problema prende-se com o Reino de Deus, que Jesus nos veio pregar. Ainda no domingo passado, no Prefácio, ouvimos uma definição lindíssima do Reino: “um reino eterno e universal: um reino de verdade e vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz”. A fidelidade a este Reino implica, portanto, uma conversão com duas componentes inseparáveis: uma espiritual, pois trata-se de um reino de santidade e de graça; outra social, pois esse mesmo Reino é também um reino de justiça, amor e paz.
Muitos outros lutam pela justiça e pela paz e muitas vezes melhor que nós, os cristãos. Mas nós devemos fazê-lo não só por razões humanitárias, mas antropológicas e teológicas: antropológicas, porque o que está em causa é a pessoa, cada pessoa, como “imagem de Deus”, e teológicas, porque o que está em causa é a credibilidade do Deus a quem dizemos amar acima de todas as coisas. Por isso, temos de nos converter e introduzir no Mistério de Deus, um Deus que é Deus da justiça, de amor e de paz. Mas convertermo-nos a este Deus é também convertermo-nos à luta pela justiça e pela paz, por amor. O nosso Deus não é um Deus de intenções, mas sim de motivações e de vida, de vida em plenitude. Por isso, o Sínodo dos Bispos de 1971 afirmava que “a acção pela justiça é uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho” (JM 6).

Renovação da Igreja

Na minha preocupação em que a Igreja portuguesa - bispos, padres, reigiosos e eligos - respondam ao desfaio da renovação profunda que a nossa Igreja precis atenho vindo a publicar alguns artigos no Correio de Coimbra. Porque várias pessoas insistiram comigo para reproduzisse o último que reproduzisse aqui os dois que publiquei pareceu-me que poderia ter alguma utilidade se eles fossem ocasião para abrirmos uma debate sério e criativo sobre esta assunto irrenunciável da Igreja portuguesa. por isso aqui deixo o primeior e logo a seguir o segundo. Vou deixar os dois por atacado, porque vou passar mais uma semana ao hospital e portanto durante uns dias, que podem variar entre 8 a 10 dias conforme a disposição, é bem possível que não venha aqui.

RENOVAÇÃO PROFUNDA DA IGREJA

Os nossos Bispos foram a Roma ver o Papa e dialogar com ele sobre a situação da Igreja em Portugal. Este diálogo parte dos relatórios que os Bispos enviaram previamente ao Vaticano.
O Papa, partindo da “confissão mais frequente nos lábios dos cristãos”, “a falta de participação na vida comunitária”, propõe, como “palavra de ordem”, construir novos caminhos de comunhão: “É preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja”. Há aqui o desfio de várias conversões.
Mudar o estilo da organização da comunidade eclesial obriga a valorizar os espaços de diálogo conjunto clero, religiosos e leigos, exige do clero que reconheça que os leigos são companheiros de jornada e igualmente responsáveis pela edificação e missão da Igreja (cf. LG 37) e dos leigos que assumam a sua qualidade de membros de pleno direito da Igreja, sujeitos também eles da missão sacerdotal, profética e real (LG 31).
Mudar a mentalidade dos seus membros de modo a que clero e leigos assumam aquilo para que foram chamados. Bem sabemos que muitas vezes
Este é um desafio velho, que todos, Bispos e restantes cristãos, sabem que é preciso vencer. A novidade está no destaque que o Papa lhe quis dar. E, perante esta recomendação papal, espera-se que a Igreja portuguesa faça deste desafio uma prioridade.
Mas isto implica que o clero esteja preparado, interiormente preparado, para respeitar os leigos, respeitar a sua igual consagração baptismal e que os leigos se respeitem e se dêem ao respeito assumindo a sério e de modo coerente essa consagração baptismal. Conversões destas não se improvisam. Exigem o que o Papa explicita numa outra recomendação muito importante: “À vista da maré crescente de cristãos não praticantes nas vossas dioceses, talvez valha a pena verificar a eficácia dos actuais processos de iniciação, para ajudar cada vez mais o cristão a amadurecer com a acção educadora das nossas comunidades e a assumir na sua vida uma postura autenticamente eucarística, que o torne capaz de dar razão de sua própria esperança de modo adequado à nossa época”. Este desafio não é nada inferior ao anterior: verificar a eficácia da nossa catequese, pois ela não est(ar)á a ajudar os cristãos a dar razões da nossa esperança de modo adequado aos tempos actuais.
E aqui o ponto central é fazer perceber e interiorizar para pôr em prática que «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa [Jesus Cristo] que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (DCE, 1). Ora esta verdade, que é fundamental e estruturante, é muito pouco proclamada nas nossas catequese, nas nossas homilias e nossos encontros e cursos de formação. Não perceber isto reduz o cristianismo a uma simples ética muito humanista e filantrópica, entremeada por actos de culto mais ou menos vividos.

Referendo ao Tratado de Lisboa

Agora que foi assinado o Trata do de Lisboa, vai começar a "guerra do refrendo". Eu sou frontalmente contra este referendo. Por várias razões , mas especialmente por uma.

Quase tenho a certeza de que nem o,1% dos portugueses leu ou tem um conhecimento profundo para dizer honestamente que concorda ou não com o Tratado.
Assim sendo, corremos o risco de uma inversão da democracia: pede-se a opinião do cidadão não para saber a sua opinião, que ele não tem, mas para que ele dê argumentos aos profissionais da política para suportem as suas posições.
Foi, segundo é opinião quase unânime, o que sucedeu com o não francês à Constituição europeia, que pouco parece ter tido com a Constituição, mas muito mais com a política interna francesa.
Por exemplo, o nosso referendo sobre o aborto (e não estou a julgar o seu resultado) não tendo envolvido os 50% de eleitores, de acordo com a lei, não tinha qualquer valor jurídico. Mas isso não impediu que fosse utilizado como justificação para mudar a lei, como muitos parlamentares queriam: tiveram alguma consideração pela opinião do cidadão? Respeitaram sequer a lei que eles próprios aprovaram?
E já agora um outro argumento: o referendo é uma promessa eleitoral do PS. Estou de acordo; mas também foram promessas eleitorais do PS a co-incineração, as SCUTs, a construção do aeroporto na Ota, etc. e isso nunca foi argumento para exigir o seu cumprimento, antes pelo contrário.

Mas, insisto, o meu não ao referendo tem a ver com o facto de a esmagadora maioria dos portugueses não saber nada sobre os conteúdos do tratado de Lisboa. Quando tivermos uma opinião pública bem formada, conhecedora dos temas que estão em debate, isto é, uma opinião pública que não seja manipulável pelos interesses partidários, aí serei o maior defensor deste tipo de referendos.
Até lá, apenas estou aberto a referendos sobre temáticas locais, onde os cidadãos conhecem bemo assunto em causa ou nacionais sempre que a temática seja suficientemente conhecida e concreta.

Por alguma razão não foi referendada a nossa Constituição, exceptuando a de 1933?
Por alguma razão os ditadores utilizam os referendos para mudar as Constituições não em favor do povo mas nos seus interesses.

Ao argumento de que assim sendo não deveria haver eleições, porque pouca gente conhece os programas partidários, direi que as pessoas geralmente não escolhem programas, mas sim pessoas? E os partidos bem o sabem.

Além do mais, e agora este um argumento emotivo: gostaria muito que a Europa ficasse cada vez mais Europa. E nada se faz perfeito logo às primeiras tentativas. Tem de se ir aperfeiçoando
Ora eu sinto, com algumas excepções, que os defensores do referendo estão muito mais preocupados em travar a Europa do que em promover a democracia. Como dizia um comentador político: “eu gosto muito da Europa, mas muito mais da democracia”. Eu gosto das duas igualmente. E acho que as duas são imperfeitas e têm de se ir aperfeiçoando mas que não são excludentes com este Tratado de Lisboa.

Honestamente admito que esta minha convicção pode ser fruto de não ter percebido os meandros disfarçados no Tratado. Mas querer juntar 27 irmãos, qual deles o mais egoísta, vai demorar muito tempo (já Pio XII dizia, há mais de 50 anos, que o problema de construção da Europa eram os egoísmos nacionais). Mas a Europa só irá acontecendo se formos indo passo a passo, compromisso daqui e dali, etc.
Eu que acredito que a perfeição só acontecerá no Reino de Deus, penso que "aqui" as soluções serão sempre imperfeitas e devem ser continuamente melhoradas. Espero que este Trtado também seja melhorado e que a Europa seja cada vez mais Europa.

2007-12-14

Europa:Pedra a Pedra

Eu gosto muito de ser português. Mas acredito que somos evolutivamente chamados a formar uma só família humana.
E se tenho ainda dificuldades em perceber a mentalidade japonesa (por exemplo, que reflexos terão as séries do tipo Sandoku nas concepções dos miúdos quando vêem os heróis morrerem e logo a seguir "ressuscitarem" n vezes da maneira mais natural e humana?), gosto muito para já de ser europeu.
Tudo o que contribua para formar uma Europa defensora da dignidade da pessoa e dos povos, aberta, solidária é bom. Mas tudo isto é muito complicado Porque continuamos ainda na fase do predomínio dos interesses (egoísmos) nacionais: todos gostam de receber os euros que a Europa dá, mas não querem dar nada em troca, nomeadamente nalgumas esferas da soberania. Como se hoje fosse possível a um país ser absolutamente soberano, qual Robinson Crusoé, numa ilha deserta no meio do Pacífico.

Por isso, acredito que a Europa se irá construindo pedra a pedra, passo a pasos compromisso a compromisso, como aliás todas as grandes empresas humanas que querem ser alguma consistência.
E acredito, sem conhecer os promenores deste Tratado de Lisboa, que ele é mais um passo, não porque seja o Tratado perfeito, mas porque foi o Tratado possível. Deve por isso ser referendado pelo povo? A minha opinião é que não como digo noutro texto. Aqui só deixo uma pergunta. As nossas leis são todas perfeitas? Não há inclusive algumas bem injustas? Alguém pede um referendo para elas?

CV (36) A casa que me trata maltratando-me

Lá voltei àquela casa que já conheço bem.
Também já conheço muita coisa do que provavelmente me vai acontecer.
O ter ideia do que me vai acontecer teve dois efeitos em mim. O primeiro é que devia preparar-me melhor, no sentido de me ter estimulado a imaginação para inventar formas de melhor resistir a algumas pressões que irei sentir. Aqui o que falha é a minha fraca criatividade e também a minha falta de elasticidade (será dos 65 anos!?!?) para me adaptar a algumas soluções relativamente simples. Mas não vou angustiar-me com estas minhas limitações, pois cada um de nós tem as suas, embora pensemos sempre que as nossas são as piores. O segundo é que corro o risco de antever, de modo exagerado, situações que não são tão dramáticas como issoposso. Aqui o meu problema é que sou globalmente optimista e localmente pessimista.
Daí que eu chame à Ortopedia B "esta casa que me trata maltratando-me". Ou, numa versão mais optimista "esta casa que, maltratando-me, me trata".
Mas, como diz o meu médico, já vimos que este tratamento deu resultado. portnato, não há azão para ser pessimista. E vai tudo correr bem.

2007-11-27

CV (35) De volta ao tratamento

olá a todos!

Venho escrever a pedido do meu pai. A TAC que foi feita há 15 dias revelou alguns pequenos indícios nos pulmões e a ida ao médico ontem determinou o começo imediato de novo tratamento. Não está tão mau como da outra vez e o tratamento resultou bem anteriormente portanto possivelmente não serão precisas tantas sessões. Esperemos que corra tudo o melhor possível.

Portanto o meu pai estará no hospital até sexta e depois virá cá ele de novo contar mais algumas das suas CV.

Um abraço a todos,
renata

2007-11-13

Bento XVI aos Bispos portugueses

Só apareço hoje porque andei estes dias ocupado com uma festinha à minha filha que fez o seu doutoramento. Foram tempos de muita alegria e bastante "distracção".
Como todos falam do puxão de orelhas do Papa aos bispos, eu diria que se houve puxão de orelhas foi a todos os católicos portugueses, naturalmente a começar pelos bispos.
Aliás o que o Papa disse não foi certamente novidade para ninguém:
1) O próprio Papa recorda os relatórios que recebeu e foi deles que desdacou este facto;
2) Todos nós sabemos, pelo menos difusamente, que a participação na Igreja em termos conciliares á fraca para não dizer menos.
Com certeza que foi muito importante que o Papa tenha falado na necessidade de reorganizar a Igreja e de cada um ocupar o seu lugar (e isto exige muita conversão para todos!).
Contudo, o mais importante é saber o que vai agora a Igreja portuguesa (nós todos: bispos, padres, leigos, religiosos; dioceses, paróquias e movimentos; secretariados e outros serviços pastorais) fazer. Que prioridades vai estabelecer? Que dinâmica vai criar? Porque é mais ou emnos sabido o que está mal, o que não queremos ou não sabemos é aplicar o remédio.
Mas o facto de ser o Papa a dizê-lo introduz um factor muito poderoso de urgência e de credibilidade que falta às vozes que se têm levantado. Agora já não são uns quaisquer marginais da pastoral; agora foi o Papa que o proclamou e o urgiu.
Assim a gente siaba responder.
Mas, tenho algum receio que passados uns dias já todos nos tenhmso esquecido. Até porque, só uma perguntinha inocente, quantos de nós leram o discurso do Papa?
Vivemos no tempo do efémero, do passageiro, do usar e deitar fora. E isto também se aplica às palavras sensatas e às críticas fundamentadas...

Para recordar o Concílio, mais uma citação:
Um só é, pois, o Povo de Deus: um só Senhor, uma só fé, um só Baptismo; comum é a dignidade dos membros, pela regeneração em Cristo; comum a graça de filhos, comum a vocação à perfeição; uma só salvação, uma só esperança e uma caridade indivisa. Nenhuma desigualdade, portanto, em Cristo e na Igreja, por motivo de raça ou de nação, de condição social ou de sexo, porque não há judeu nem grego, escravo nem homem livre, homem nem mulher: com efeito, em Cristo Jesus, todos vós sois um (LG 32).

2007-11-04

Zaqueu

Tenho uma especial predilecção por Zaqueu, como modelo de crente.
Bem sei que Abraão é considerado "o noso pai na fé", o grande modelo. Mas para mim, Zaqueu é melhor modelo, porque é dos nossos, pecador do dia a dia.
Abraão é doutra cepa. Tinha uma fé de arrasar montanhas. Aquela de obedecer sem um esboço de dúvida, à ordem "Deixa a tua terra, a tua família, a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar" (Gn 12,1) já me põe problemas muito sérios e dificilmente me convenceria mesmo com a promessa de "farei de ti um grande povo" (Gn 12,2). Mas a de "pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar" (Gn22,2), esta nunca seria capaz da fazer. Não tenho fé que chegue a tanto. Ponto final, parágrafo.
Mas também creio sinceramente que Deus não me pediria isso. Porque Deus ama a vida e não a morte. E eu também... à minha maneira, isto é, à maneira humana. Mas sobretudo porque eu nunca poderia imolar ou dar os meus filhos. Pegar na Renata ou no David e degolá-los a pedido, mesmo que fosse de um Deus não conseguiria fazê-lo nem sequer podia aceitar um Deus assim! Mas também porque os meus filhos não são meus: são deles próprios, têm a sua vida, o seu caminho. Um caminho que eu não posso, não devo nem quero traçar. Tento ajudar o melhor que sei e posso, mas sem nunca dispor deles.
Mas vamos a Zaqueu. Por que o considero modelo da fé? Porque exemplifica da maneira mais vivencial os caminhos que o crente tem de percorrer.
1ª - Procurou por todos os meios ver Jesus: ele, um dos homens mais poderosos da terra, até subiu a uma árvore, como um garoto a espreitar os acontecimentos.
2ª - Respondeu imediatamente ao chamamento de Jesus: sem falsos pudores nem respeitos humanos, saltou de alegria.
3ª - Converteu-se não apenas teoricamente, mas mudou realmente a sua vida: "vou dar metade dos meus bens aos pobres e vou restituir quatro vezes mais a quem prejudiquei".
4ª - Embora, o Evangelho não o refira, certamente que, a partir daí, Zaqueu deve ter sido um dos grandes apóstolos de Jesus.

Para recordar o Concílio:
Ao chamamento de Deus, o homm deve responder de forma tal que, sem transigir com a carne e sangue, ele se entregue à obra do Evangelho... Anunciando o Evangelho aos povos, dê a conhecer cofiadamente o mistério de Cristo, do qual é legado, de maneira que ouse falar nEle como é necessário, não se envergonhando do escândalo da cruz (Decreto sobre a Actividade Missionária da Igrja, Ad Gentes, 24)

2007-11-02

Sem morte a vida perderia o sentido

Estive hoje, Dia dos fiéis de funtos e das visitas de saudade aos cemitérios, a preparar o meu artigo para o Correio de Coimbra desenvolvendo três ou quatro ideias sobre a morte:
1ª - A nossa sociedade vive numa contradição acerca da morte: por um lado, esconde-a e tem medo dela; por outro, vive em muitas circunstâncias uma espécie de cultura da morte: como conduzimos, como nos protegemos, com tratamos a natureza, etc..
2ª - A morte é um dos principais factores de socialização hoje: em torno do morto convivemos mais do que na maior parte das situções, pois a nossa é uma sociedade de desencontros, de solidões, de "não lugares".
3ª - A nossa ânsia de eternidade não se compagina facilmente com uma vida que acabe aqui sem mais.
4ª - A morte diz-nos que só temos uma vida e que, portanto ou a vivemos bem ou não a vivemos. Se vivessemos "para sempre" perder-se-ia a urgência de viver a vida a sério. E, provavlemnte, não nos sentiríamos obrigados a ter um estilo e um programa de vida.

Para não esuqecer o Concílio, faço uma citação de mais um dos cinco documentos promulgados a 28.Out.1965:
A verdadeira educação, porém, pretende a educação da pessoa humana em ordem ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bemdas sociedades de que o homem é membro e em cujas responsabilidades, uma vez adulto, tomará parte (Declaração sobre a Educação Cristã, Gravissimum educationis, 1).

2007-11-01

Crianças soldados

As crianças soldados atingem um número muito próximo das 300 mil.
É uma situação que não nos diz muito e não imaginamos a enorme brutalidade e violência que está por detrás desta realidade. As crianças, com idades que por vezes nem chegam aos dois dígitos, são raptadas e treinadas no ódio e no máximo desprezo pela vida dos outros e deles próprios. Desse treino faz parte a aplicação contínua de drogas que as tornam resistentes à dor, à fome, as atiram para frente do combate sem qualquer medo.
Ismael Beah escreveu a sua história, agora traduzida em português "Uma longa caminhada". Nela se percebem as circunstâncias que levam um rapaz que nem sabia o que era guerra a tornar-se uma máquina de matar e como, graças ao carinho de vários voluntários, conseguiu de novo aprender a sorrir e a viver. A seguir reproduzo o testemunho que deu no Conselho Económico e Social das Nações Unidas:
Sou da Serra Leoa e o problema que afecta as crianças é a guerra que nos obriga a fugir de casa, a perder as nossas famílias e a vaguear sem rumo pelas florestas. Como resultado, envolvemo-nos no conflito como soldados, carregadores e como executores de muitas outras tarefas difíceis. Tudo isto por causa da fome, da perda das nossas famílias e da necessidade de nos sentirmos em segurança e de fazermos parte de algo depois de tudo ter sido destruído. Juntei-me ao exército porque perdi a minha família e tinha fome. Queria vingar a morte dos meus familiares. Também tinha de arranjar comida para sobreviver e a única forma de o fazer era juntar-me ao exército. Não foi fácil sermos soldados, mas tivemos de o ser. Já fui reabilitado, por isso não tenham medo de mim. Já não sou soldado, sou uma criança. Somos todos irmãos. Aprendi com a minha experiência que a vingança não é boa: se vou vingar-me, irei matar outras pessoas cuja família quererá vingar-se; assim a vingança, a vingança e a vingança nunca terá fim”.

De um dos cinco documentos conciliares promulgados a 28.Out.1965:
Carece, portanto, de fundamento toda a teoria ou modo de proceder que introduza, entre ser humano e ser humano ou entre povo e povo, qualquer discriminação quanto à dignidade humana e aos direitos que dela derivam (Declaração sobre a Igreja e as Religiões não-cristãs, Nostra Aetate, 5)

2007-10-30

Anacoluto

O primeiro editorial do novo director do Osservatore Romano deixou-me um pouco baralhado, porque me parece um anacoluto. Talvez alguém já não se lembre desta figura de estilo: começa-se por uma ideia depois salta-se para outra que pouco ou nada tem a ver com a primeira.
Em vez de grandes explicações, passo a citar algumas passagens.
A primeira parte é um retalho de citações de um artigo de Montini, futuro Paulo VI, então arcebispo de Milão, no centenário do jornal:
"Para ser um grande jornal é necessário desenvolver a sua natureza de «jornal de idéias». Sim, porque o jornal vaticano «não é, como muitíssimos outros, um simples órgão de informação; quer ser um meio principalmente de formação. Não quer só dar notícias, quer criar pensamentos. Não lhe basta referir os factos como acontecem: quer comentá-los para indicar como deveriam ou não ter ocorrido. Não mantém só um colóquio com seus leitores; ele tem-no com o mundo: comenta, discute, polemiza".
"Nenhum outro pode ter horizonte mais amplo de observação; nenhum outro pode ter fontes mais ricas de informação; nenhum outro tem temas de desenvolvimento mais importantes e mais variados; como nenhum outro, juízo de orientação mais autorizado e mais benéfica função de educação na verdade e na caridade".
Tendo em atenção o título do editorial "Tradição e futuro", estas citações de Montini ilustram a tradição. E qual é o futuro que o novo director desenha?
Muito simples e linear: o jornal será o "jornal do Papa". E para que não pensem qua há engano, esta afirmação aparece mais que uma vez:
"L’Osservatore Romano é, antes de tudo, o «jornal do Papa», e difundirá de duas formas o ensinamento e a pregação do bispo de Roma: conservando a sua peculiar natureza documental e desenvolvendo a da informação jornalística. Mas também se tornará maior expressão dos organismos e das representações da Santa Sé, em Roma e no mundo ao serviço de Bento XVI..."
"E o mundo verá o jornal do Papa informando sobre ..."
"Seguindo o exemplo de Bento XVI e difundindo os seus ensinamentos, o seu jornal quer dirigir-se com amizade a todos, crentes e não-crentes"
O Osservatore Romano é o jornal do Papa, ou precisando melhor, é o jornal de Bento XVI.
E eu a pensar, na minha qualidade de crente, que era o jornal da Igreja, que devia estar ao serviço da Igreja e do Reino de Deus. Mas como se lê na primeira citação estamos todos "ao serviço de Bento XVI".
Voltámos à monarquia absoluta. Colegialidade, onde vai ela!... Corresponsabilidade e participação, desaparecem do mapa. Bento XVI nos dirá o que devemos fazer. Não vamos precisar de pensar e quanto menos pensarmos melhor. Onde vai longe o sonho de Montini: "um jornal de ideias"!
O novo director chama-se professor Giovanni Maria Vian.
Angura-se-lhe um futuro promissor. Só tenho uma sugestão: é que use sempre calças!

Para não esquecer que aconteceu um Concílio, cá vai mais uma citação:
Portanto, ainda que na Igreja nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são contudo chamados à santidade e a todos coube a mesma fé pela justiça de Deus. Ainda que, por vontade de Cristo, alguns são constituídos doutores, dispensadores dos mistérios e pastores em favor dos demais, reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à actuação, comum a todos os fiéis em favor da edificação do corpo de Cristo. A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante povo de Deus contribui para a união, já que os pastores e os demais fiéis estão ligados uns aos outros e aos fiéis: e estes dêem alegremente a sua colaboração aos pastores e aos doutores (LG 32)