divórcio ou casamento eterno?...

2009-07-02

Palavras que matam

Há muitos anos atrás li um artigo que falava de “palavras que matam” e um dos exemplos que dava, se bem me lembro, era o dos ratos cangurus. O governo da Austrália decretara a desratização do território. Ora uma das vítimas foi o rato marsupial. Embora não se tratasse de um rato (mas de uma família dos marsupiais, a Potoroidae), o seu nome (rato) levou os zelosos funcionários a tentar acabar com ele.
Este episódio veio-me à memória com a proposta de Bento XVI de celebrarmos o ano sacerdotal. Trata-se de dar especial atenção ao que é ser presbítero ou sacerdote, duas palavras que o Papa utilizou.
Utilizar a palavra sacerdote neste sentido estrito e num povo de Deus que mal conhece os documentos e a reflexão do Vaticano II é trazer ainda mais confusão e não respeitar o próprio Concílio, que fala várias vezes do Povo de Deus como povo sacerdotal e que insiste no sacerdócio comum dos fiéis: “O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas por grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. Com efeito, o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que eles exercem na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade operosa” (LG 10).
Mas mais clarificadora é a evolução que teve o título do documento sobre “O Ministério e a Vida dos Presbíteros” (a tradução portuguesa traz “Sacerdotes”, embora a versão oficial latina tenha a palavra presbyterorum).
Este documento conciliar teve várias redacções.
O texto preparatório foi recusado por esmagadora maioria. A partir da síntese das 769 propostas e do debate conciliar foi elaborado um documento intitulado “De clericis”. Recusado, apareceu uma segunda versão, que foi recebendo contributos durante o ano de 1963, dos quais saiu uma 3ª versão, “De sacerdotibus”. Várias versões se seguiram até que a sexta viria a impor-se no Plenário (“De vita et ministerio sacerdotali”) na III Sessão (20.Nov.1964). No ano de 1965, chegaram mais 523 propostas de emenda, dando origem a uma nova versão, “De ministerio et vita presbyterorum”. Finalmente foi aprovada a versão final, a 7.Dez.1965, com o título definitivo: “Presbyterorum ordinis”.
Como se vê a evolução foi difícil mas clara: De clericis; De sacerdotibus; Presbyterorum ordinis.
Por isso chamar “Ano Sacerdotal” em vez de “Ano Presbiteral”, embora não mate a doutrina conciliar, põe em causa o seu espírito e sobretudo não ajuda os fiéis a perceber que todo o Povo de Deus é sacerdotal: “Com efeito, os que crêem em Cristo, regenerados não pela força de germe corruptível mas incorruptível por meio da Palavra de Deus vivo (cf. 1 Ped 1,23), não pela virtude da carne, mas pela água e pelo Espírito Santo (cf. Jo 3, 5-6), são finalmente constituídos em «raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo conquistado... que outrora não era povo, mas agora é povo de Deus» (1 Ped 2, 9-10)” (LG 9).
Além disso, sacerdote não esgota toda a dimensão do presbítero. Sacerdote (homem do sagrado) é, como mostra o AT, o homem que é responsável e se fecha no lugar sagrado. O presbítero (primariamente “o homem da Palavra”: PO 2; 4;) deve partir para onde a Palavra de Deus ainda não chegou e não pode ficar no recinto fechado do sagrado.
Será que já todos os presbíteros perceberam isto? Talvez não.
Por isso não será muito de admirar que os leigos apenas esperam deles que celebrem os sacramentos, enterrem os mortos e por eles celebrem a missa redentora. Isto é, que sejam uma espécie de “funcionários de Deus”, que assegurem uma relação saudável com a divindade.

2 Comentários:

Blogger Danilo Badaró disse...

Zé, acho que vc exagerou bonito nesse seu texto. Não vejo confusão nenhuma, até porque o termo "sacerdote" é usado no sentido amplo e no sentido estrito. Uma catequese mediana é suficiente para evitar qualquer equívoco.

Coloquei cópia desse meu comentário na seção "Li e pensei" do meu blog

8/7/09 20:12

 
Blogger Zé Dias disse...

Não sei se exagerei, mas a minha preocupação é a urgência de uma adequada formação cristã, pois, como dizem os Bispos portugueses, “a fragilidade do cristianismo provém, em grande parte, do analfabetismo religioso”.

E podia dar outros exemplos, além de "sacerdote". Fico-me por um. Quando se fala de vocações, toda a gente entende vocação para padres (“sacerdotais”) ou “religioso(a)s”. Os leigos “não têm vocações” nem são consagrados?
João Paulo II afirmou no Sínodo sobre a Vida Consagrada que a “consagração radical é a do baptismo” e é nela que se fundamentam todas as outras vocações. E o documento conciliar sobre os Leigos diz: “A vocação cristã é, por sua natureza, vocação ao apostolado” (AA 2) e “os leigos derivam o dever e o direito do apostolado da sua união com Cristo-Cabeça” através do Baptismo e da Confirmação (AA 3).

Embora não saiba o que é uma catequese mediana nem quem a faz, não me parece que a percepção e sedimentação destes conceitos seja tão linear que todos os entendam facilmente.

11/7/09 09:58

 

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