divórcio ou casamento eterno?...

2006-01-17

Ser cristão hoje

Na sequência do desafio que fiz atrás, gostaria de iniciar a análise de algumas causas do comportamento de muitos cristãos no mundo de hoje.
Se não fosse a ida à missa ao domingo, muitos não se distinguiriam do resto dos cidadãos e alguns até perderiam no confronto.

Lembro-me que, quando acabei a minha licenciatura e comecei a trabalhar, uma das questões básicas que me coloquei foi esta: o que vais fazer agora? Como vais viver o teu ser cristão? Ser cristão é "só" ser um bom cidadão que vai à missa?
Interroguei "peritos", li livros e todos confluíam: ser cristão não é ser diferente de um b0m cidadão, apenas tem motivações diferentes.
A resposta não me agradou. E continuei a busca. Até que descobri num texto que já lera tantas vezes - o Sermão da Montanha - duas passagens que me deram a resposta. Cito:
1ª: "Amai os vossos inimigos... Por que se amais os que vos amam, que recompensa tereis disso? PORVENTURA NÃO FAZEM ISSO OS PUBLICANOS? E se só saudais os vossos amigos, que fazeis de extraordinário? ACASO NÃO FAZEM O MESMO TAMBÉM OS PAGÃOS? (Mt 5,46-47).
2ª: "Não andeis pois preocupados (com o amanhã). OS PAGÃOS É QUE SE PREOCUPAM COM ESSAS COISAS" (Mt 6,25-32).
Por pagão entende-se o não crente (e, portanto, para o caso, supostamente um bom cidadão)

Daqui conclui que ser cristão tem que acrescentar mais ao ser bom cidadão e esse mais não é apenas o ir à missa. E foi no mesmo Sermão da Montanha que descobri a resposta. Cito de novo:
"Ouviram o que foi dito: "Olho por olho, dente por dente". Porém eu digo-vos: "Não resistais a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, dá-lhe também a outra. Se alguém te levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. SE ALGUÉM TE OBRIGAR A ANDAR UMA MILHA, VAI COM ELE DUAS" (Mt 5,40.41).

Esta passagem sempre me intrigou. Li, reflecti, meditei... até me ter percebido do seu sentido último, pelo menos para a minha vida. Andar uma milha era a obrigação legal que devia ser satisfeita quando os correios do imperador levavam mensagens: por lei podiam requisitar qualquer cidadão para os acompanhar ou lhes indicar o melhor caminho durante uma milha. Fazer isto era cumprir a lei, era ser BOM CIDADÃO. Mas continuar a acompanhá-lo uma segunda milha, ia para lá da exigência legal; era um exercício de AMOR.
Então percebi que se só cumprir a lei (o que já não é nada mau) seria um BOM CIDADÃO mas não necessariamente um bom cristão.
Para ser um BOM CRISTÃO eu tinha de ir para lá da lei, ir para lá da obrigatoriedade de andar apenas uma milha e andar 2 ou 3 ou quantas fossem precisas para ajudar o meu irmão.

As causas do nosso comportamento ficam para daqui a pouco. Para já deixo estas ideias.

16 Comentários:

Anonymous nata disse...

Tenho sempre muita vontade de vir aqui escrever, participar na(s) discussão/ões (no bom sentido!), dar algum contributo importante, opinião, etc... Mas a verdade é que tudo o que escreves é o que eu penso também (ok quase tudo...) e isso não é de estranhar pois és meu pai e todas estas coisas me transmitiste e ensinaste. Não por imposição mas dando-me espaço para pensar e perceber a lógica do que dizias. Concretamente em relação a este assunto, eu sou como tu: mais importante que respeitar a lei (o que tb é muito importante!) eu gosto de ir além dela, caminhando 2, 3, mais milhas, as que forem preciso nesta nossa caminhada no respeito pelo outro, na ajuda ao outro, no ir ao encontro dele.
Não me quero repetir mas realmente o q TU escreves é o qu EU penso tb... e pronto fico sem ideias novas p escrever. No entanto, escreve escreve escreve e não pares! Que eu virei sempre aqui ler!

17/1/06 16:59

 
Anonymous David Leitão disse...

Só queria dizer que o blog do meu pai é muito bom apesar de não ter lido quase nada. Vejo o Zé Dias animado com o seu blog espero que continue a dar frutos.

Um abração

17/1/06 21:15

 
Anonymous António Simões disse...

Agora fico a saber que o David é o filho do Zé e que veio dar uma vista de olhos.
Mas ao Zé:
Leio o que escreves, e que me agarra, porque há duas maneiras de interpretar Cristo. Os que olham na Cruz e os que olham no Papa. Ambos símbolos da Igreja. Eu respeito o Papa mas olho Cristo à minha maneira, e que revejo muitas vezes nas tuas palavras. Sei que a Igreja não me compreende, sei que me afasta, simplesmente porque não sou um cumpridor daqueles mandamentos que me ensinaram na catequese, e tenho a coragem de ser em qualquer lado, o mesmo. O facto de não ser casado, tem pesado muitas vezes em decisões de alguns da Igreja, que pensava serem amigos. Tenho pena, muitas vezes que o raciocínio dos que se dizem os donos da Igreja seja tão sectarista, e analise os outros como se ainda estivessemos no tempo da Inquisição.
A Igreja proibe-me a comunhão. Só por isso, faço a minha análise. Muitas vezes estou na missa, na minha terra, olho para aquela gente, que comunga e faço as minhas reflexões. Que significado tem para eles aquele acto? Quem lhes incute aquela forma de ser cristão? Que consciência têm do acto da comunhão? E, nessas alturas falo com Ele e digo: Estás a ver, Amigo, dás-te desta forma, sem perguntares: o que queres de Mim? E a mim, deixas-me de lado, como se eu fosse um criminoso, ou aquilo que os teus "donos", chamam de pecador...

18/1/06 03:22

 
Blogger Zé Dias disse...

Á Nata

Espero que o que tenho de bom se tenha mesmo transmitido a ti e ao David.


Um abração à Nata e outro ao David

18/1/06 08:12

 
Blogger Zé Dias disse...

Ao David
Aparece mais vezes e traz as tuas reflexões que são bem precisas nestes debates onde só os "velhotes" costumam aparecer.
E nós, os ditos "velhotes" temos muita dificuldade em entender os mais novos. Se fores aparecendo, estás a dar um bom contributo para um diálogo nem sempre fácil mas que é necessário. Por três razões.
Primeira: muitos dos mais velhos pensam que os mais novos são uma "geração rasca" sem valores sem respeito nenhum por tudo o que é passado.
Segunda: porque os mais novos pensam que dos mais velhos pouco há a esperar: chatos, sempre com proibições e preconceitos, incapazes de olhar o futuro.
Terceira: porque a conversar é que a gente se enetende, se compreende, se conhece e acabaremos por perceber que temos muita coisa em comum. Pelo menos sermos pessoas que merecem ser respeitadas.
Um abração muito grande

18/1/06 08:19

 
Blogger Zé Dias disse...

Ao Simões

O teu comentário está cheio de reflexões profundas, que não me atrevo a comentar.Apenas alguns apontamentos:
O modelo de Igreja re-introduzido pelo Vaticano II, ao valorizar o "mistério" em vez da instituição, coloca o centro em Jesus Cristo (melhor, na Santíssima Trindade) e não no Papa.
Portanto fazes bem em dar prioridade ao olhar para Jesus Cristo, na Cruz mas também na Ressurreição.

Ser ou não ser casado pela Igreja coloca problemas no relacionamento com a instituição eclesial não necessariamente com Deus. E cito livremente palavras de João Paulo II: "Deus não deixa de amar os que se separam nem mesmo os que iniciaram uma nova união irregular" (Disc. em Braga).
E no Forum já fiz referência a uma recente posição dos Bispos no Sínodo.

Também eu me interrogo às vezes se todos os que vamos à comunhão, vamos seriamente ao encontro de Jesus ou se é um mero acto reflexo? E se vamos mesmo entrar em comunhão com Jesus, por que não entramos em comunhão com os outros, que são a sua imagem real?
Finalmente por que somos tão prontos a defender a doutrina e tão lentos a amar a pessoa, sobretudo se está em situações em que mais necessitaria (só Deus sabe quem mais precisa!!!) de auxílio?
O episódio da mulher adúltera,um dos escândalos que Jesus proporcionou, ficou escrito nos Evangelhos. Por que é tão esquecida a sua mensagem?!

18/1/06 08:37

 
Blogger MC disse...

"Os teus donos..." Livra, que soco no estômago.

Não, não somos donos dos sacramentos, que são tão só o próprio Cristo.

"Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome..." E não é só nos templos, não. É onde estivermos por amor.

Parabéns pelo blogue.

18/1/06 17:51

 
Blogger Candida disse...

Ze,

muito do que sou e tb fruto dos teus ensinamentos e por isso concordo com muito do que dizes.
durante todas as minhas andancas pelo mundo tenho-me feito muitas vezes a pergunta se realmente estarei a ser verdadeira para com a minha fe. e que segui escolher o caminho do sermao da montanha ha muito tempo atras mas desde entao nao tenho bem a certeza se estou a caminhar na direccao certa. Sem duvida que me esforco por ser uma boa cidada... mas onde esta o meu inimigo, one esta a pessoa a quem devo dar de comer e vestir? tenho muito receio que no meio de uma vida muito priveligiada e protegida no meio academico todas essas coisas nao sejam obvias e que o meu olhar acomodado nao as consiga ver. ao ter por vezes esta conversa com o maurice ele pergunta-me, entao porque nao deixas tudo e vais fazer voluntariado? nessas situacoes fico muito calada e desarmada. porque nao vou?

19/1/06 11:23

 
Blogger Confessionário disse...

Sabes amigo, o cristão deve ser o melhor cidadão! Só falta saber como se deve ser cidadão. O que citas de Cristo identifica, sem dúvida, um cristão. Mas ainda exige mais. Ver DEus no amigo que se ama e no inimigo que se tem dificuldade em amar! Porque ter fé é uma questão de amor a um Deus que nos quer salvar!
Bolas, espero que a linguagem não tenhja sido complicada. Força, amigo.

19/1/06 17:04

 
Blogger Manuel disse...

Olá,
Passei por aqui e gostei do que li.
Decidi linkar-te...

19/1/06 17:07

 
Blogger Zé Dias disse...

OLá Cândida
Que bom ler-te por aqui.
E também foi muito bom saber que os dois anos de preparação para o Crisma durante os quais acompanhei um grupo fantástico de que fazias parte e outras conversas ainda são importantes para ti.
E gostei de saber isso porque o Evangleho não nos ajuda muito nisto, quando diz "É um o que semeia (será que semeei alguma coisa?! se sim, foi o Espírito através de mim) e outro o que colhe" (JO 4,37). Ou aquela outra ainda mais terrível: "Somos servos inúteis; apenas fizemos o que devíamos!" (Lc 17,10).
Que tudo te corra bem)

19/1/06 20:52

 
Blogger Zé Dias disse...

Ao Confessionário

Concordo que ter fé é ter amor a um Deus que nos quer salvar. Mas também acredito que Deus está realmente presente no outro, qualquer que ele seja, e que é nele que o devo encontrar.
Mais se não consigo amar o irmão que vejo como posso amar Deus que não vejo? (cf 1Jo 4,20)

19/1/06 20:57

 
Blogger Zé Dias disse...

À MC

Mandei-te umas dicas para o teu blog.

19/1/06 20:57

 
Blogger Zé Dias disse...

Manel

Longas amizades, lavam.nos a gostar daquilo que partilhamos.
Um abraço

19/1/06 20:58

 
Blogger Vilma disse...

Ser cristão é acima de tudo manter um relacionamento com Deus dia a dia; vendo-O nos pequenos e grandes detalhes da nossa vida, é manter a nossa identidade com Cristo, não deixar que ela seja afectada, mas saber estar com todos ao ponto de fazer-mos a diferença; saber ter fé com amor, sem fanatismos e exageros; saber ir ao encontro de cada ser humano e vÊ-lo como Deus o vÊ... enfim! É viver Cristo dia a dia em tudo o que fazemos e somos.

22/1/06 19:01

 
Anonymous Anónimo disse...

muito bom seu blog, estava a procura de algo assim, e me deu muita força para prosseguir em frente e acreditar que ser cristão é bom demais. o sermão da montanha é maravilhoso, espetacular diz tudo sobre ser cristão no mundo de hoje, parabéns, Deus o abençoe.

8/6/11 20:01

 

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