divórcio ou casamento eterno?...

2006-08-06

CV(14) Dolce Vita

Esta paragem na minha vida deu-me para olhar um bocadinho para trás.
E verifiquei que tenho tido uma vida cheia de coisas boas. Não me recordo de grandes difculdades. Lembro-me do quanto me custou sair de casa aos 10 anos e as saudades que me faziam andar a chorar uma semana antes e uma semana depois de sair de casa. Poderia referir as várias dificuldades derivadas do pouco dinheiro que os meus pais dispunham para trazer os quatro filhos a estudar. Lembro o meu crónico tumor do ouvido esquerdo que me acarretava períodos muito doloroso. Lembro a dificuldade de termos filhos, o mais novo dos quais surgiu já eu tinha quase 5o anos: uma idade imprópria para ser pai!
Mas grandes dramas nunca tive.
E se recordo isto é porque acho que a minha "vida boa" me deixa mal preparado para a situção que agora sou forçado a viver. Não ter de afrontar acontecimentos dramáticos acaba por nos amolecer o espírito para as situações difíceis. Aliás este é certamente um dos principais dramas da educação hoje. Especialmente os pais estamos muito preocupados em "desviar as pedras" do caminho dos nossos filhos e depois eles levam tudo numa boa. A própria escola, certamente com amelhor das intenções mas com péssimos resultados, introduziu a ideia do "estudar brincando", como se estudar fosse uma brincadeira que, como qualquer brincadeira, só se joga enquanto agrada.
Mas voltando a mim. Não só tenho tido uma vida sem grandes problemas, como agora familiares e amigos estão continaumente a apaparicar-me: mal me deixam fazer qualquer coisa e assim corro o risco de ficar mais debilitado e menos autónomo. Eu sei que é por amor, mas convém não exagerar.
Estou a ver a minha vizinha (ainda eu não suspeitava do que me ia acontecer) chegar do tratmento do IPO. "Então como veio?", perguntava-lhe. "Vim de autocarro; os meus filhos não puderam ir buscar-me". "Então e agora, vai descansar...", insistia eu. "Não, senhor Zé, tenho de ir aos serviços pagar a conta da luz que é hoje o último dia; tinha a carta no correio que fui agora ver". E lá ia ela, acabada de chegar do hospital a caminho da Baixa para pagar a luz.
E ali andava ela, mulher habituada a enfrentar as dificuldades da vida e a vencê-las, quando tinha as forças em pleno ou mesmo quando as forças lhe faltavam, mas lhe faltava também alguém que lhas resolvesse por ela.
Lembro-me que quando fiz os 20 anos estive quase para embarcar para a guerra. Ainda hoje me interrogo: "O que seria de mim, com a minha incapacidade moral de matar alguém ou de o reconhecer qualquer outro como inimigo (não somos todos filhos do mesmo Pai que nos criou, a cada um de nós, à sua imagem?)?". Mas o que sabemos nós do nosso comportamento em situações de stress violento e em circunstâncias que ultrapassam os limites da resistência humana?
Bom, já que a vida me preparou mal para este momento, ao menos que eu seja capaz de, embora sexagenário, encontrar reservas de resistência e de capacidade de luta que a vida nunca antes me exigira e cujas reservas eu nem sei em que ponto estão!

2 Comentários:

Anonymous Zé Carlos disse...

"Não ter de afrontar acontecimentos dramáticos acaba por nos amolecer o espírito para as situações difíceis. Aliás este é certamente um dos principais dramas da educação hoje"

Penso como tu e sinto o mesmo. Também tenho uma vida boa. Só tenho ginasticado a cabeça (a razão) para possíveis futuros dramas. Mas Deus há-de dar uma ajuda!

8/8/06 12:00

 
Blogger joaquim disse...

Ainda agora li a sua história sobre o tempo que os pais passam com os filhos e que me tocou de modo muito especial e já encontro outro motivo de me "meter na sua vida": também eu fui pai a última vez aos 50 anos e por isso digo por vezes que sou avô dos meus filhos.

Concordo com tudo o que diz, mas quanto à guerra, onde tive de estar, provoca em nós um alheamento que nos chega a deixar indiferentes. Se assim não fosse seria impossivel.
Graças a Deus, depois de passada, regressa a nossa identidade, pelo menos no meu caso e até se podem recordar alguns episódios caricatos que por lá se passaram.
Apesar de toda a vida que possamos ter, será sempre muito dificil estar preparados para esses momentos.
Abraço em Cristo
joaquim

14/8/06 16:43

 

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