divórcio ou casamento eterno?...

2006-10-08

CV (23) Pedra de escândalo

Um dia destes, um dos meus maiores amigos (como se nota pela absolutização das palavras que me dirigiu) e de quem eu gosto também muito, mas mesmo muito, entrou de rompante com uma questão, a inevitável questão:
- Explica-me uma coisa. Então, tu, que gostas tanto de Deus, que até deixaste a tua profissão para lhe dedicares mais tempo, tu, que não tens vícios (não fumas, não bebes), tu que ajudas tanta gente, diz-me: O que queres que eu pense de Deus se, apesar de tudo isto, ele te faz sofrer tanto!?
Perante esta eterna questão o que podemos dizer de decente!? Que podia eu dizer de libertador a este meu amigo?
Comecei por não o iludir nem camauflar a questão:
- Ó pá, este é o grande problema do homem. Um problema com o qual todos, mais cedo ou mais tarde, temos de nos confrontar: o problema do mal, o problema do sofrimento; o problema da relação de Deus com o mal (não foram os humanos obrigados a inventar uma disciplina, a teodicieia, "a justificação de Deus"?), o problema do sofrimento dos inocentes, o Holocausto e o silêncio de Deus.
Acrescentei algum palavreado clássico, que vou recuperar na crónica seguinte.
Aqui quero referir outro aspecto.
Afinal, nesta minha doença estou também a ser pedra de escândalo para outros. Será que se eu, nos momentos mais complicados, mostrasse que estava a "sofrer com amor", se eu tivesse sido capaz de irradiar uma alegria libertadora perante a dor, não teria sido um argumento da existência de Deus para este meu grande amigo em vez de ser uma prova da sua não existência? Será que afinal não estou a portar-me como um crente sério, mas apenas como uma psssoa que sofre e sofre sem sentido, sem convicção, sem a força de que vale a pena a viver, sem a capacidade de mostrar que a vida é feita de altos e baixos e os baixos são para viver com a mesma energia com que se vivem os altos?
Sérá que...? Será que...? Será?

Não estou a dizer isto com angústia nenhuma. Sinto preocupação pelo facto, mas sinto uma grande paz de espírito. Mas tenho de colocar ou de me colocar em questão, tentar avaliar o meu testemunho mas não fico mais abatido pelo facto do meu testetemunho (martírio, em grego) ser tão fraco. Aqui não estou a pecar por orgulho. Sempre aceitei as minhas limitações, tal como as minhas forças, como vindas de Deus. Aliás, nestas coisas, costumo regular-me por dois critérios:
1º procuro dsitinguir entre escândalo activo, do qual sou objectivamente responsável, do escândalo passivo;
2º procuro seguir aquela "afirmação" de que "somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer" (Lc 17,10). Já agora devo dizer que não gosto nada deste adjectivo "inúteis". Prefiro muito mais "dispensáveis" (outro pecado de orgulho!?), mas a verdade é que o original grego não deixa muitas ilusões: dõuloi (escravos) achreioí (inúteis, o dicionário que tenho até acrescenta um outro sinónimo "louco": a loucura dos que crêem em Deus!?; "escândalo para os judeus, loucura para os gentios" (1Cor 1,23)?). Esta última palavra vem de a + chreia, "serviço, ocupação, proveito, utilidade"! De qualquer maneira, a ideia é a de que nenhum trabalho no Reino de Deus supõe recompensa em termos de justiça mas sim de graça e de dom gratuito.

Portanto, não me estou a auto-falgelar, mas a colocar quetões existenciais, muito sérias.
Esta situação me tira menos força para continuar a lutar, mas gostaria de partilhar esta questão (que não é meramente académica) e pela qual talvez muitos de nós passemos, sem sequer nos darmos conta.
Eu, pedra de escândalo, me confesso.

3 Comentários:

Anonymous ângela disse...

Há dias e a propósito desta tua explanação, perguntava-me eu como era possível ter tanta fé para encarar esta doença como tu? E dei comigo convencida que numa situação semelhante já estaria vencida pela minha falta de força, pelo meu pouco optimismo. Cheguei à conclusão que afinal (não parecendo) sou tão frágil. E a propósito de uma conversa que tivemos, conjugando-a com este teu artigo, tirei uma conclusão que vou dizer publicamente, não para tua satisfação porque eu acho que essa já tu sentes, mas provavelmente mais por necessidade minha - é a de que toda a tua atitude só pode vir de uma enorme Fé, duma capacidade de sofrer pelo amor que tens aos outros e por amor a Deus ou de Deus. Assim, a outra conclusão, é a de que a tua hipotética "fragilidade" é apenas a sensibilidade de alguém que vive na certeza de que pode existir um outro mundo, de que todos temos direito a olhar para a vida com mais poesia e sonhar convencido de que todas as almas terão um dia a mesma luz.

9/10/06 21:11

 
Blogger Zé Dias disse...

Não tenho dúvida que a minha fé me ajuda muito, que sem ela possivelmente andaria muito mais abatido. O meu drama é se tenho fé que chegue para suportar as situações mais complicadas.
Porque ter fé qundo tudo corre bem, é tão fácil (e essa, passe a imodéstia, penso que a tenho em abundância e às vezes até demais, porque uma fé sem dúvidas não sei se será uma fé autêntica!).
Mas manter a fé quando as coisas correm mal, aí o caso torna-se muito complicado e as minhas dúvidas acerca da abundância da minha fé começam a ser demasiados abundantes!

11/10/06 11:14

 
Anonymous José Ferraz disse...

Depois de ter lido as comunicações do Dr. Zé Dias sobre "O sofrimento" apeteceu-me trazer para aqui algumas questões:
Então quem é que classificou (ou qualificou) Deus "Deus dos exércitos?" que vence os inimigos de Israel, varre as florestas e retorce os carvalhos e os cedros do Líbano?
Então esse Deus, o Deus do AT, não é o mesmíssimo Deus de Jesus Cristo, o Deus do perdão, da misericórdia,da paz e da justiça?
A Sagrada Escritura não diz que Deus é o Deus da vida e da morte? A causa do mal que envolve o sofrimento em todas as suas dimensões, a fome, as tragédias, a doença, a morte, não reside no pecado original e originante do 1º. Livro da Bíblia? Não significa que seja o pecado pessoal da vítima sofredora, mas o pecado universal que me leva a acreditar que os meus pecados podem não me fazer sofrer aqui na Terra mas podem ser causa de sofrimentos de outros meus irmãos na China, na América, na África e na Ásia, assim como os meus sofrimentos podem ser causados pelos pecados dos outros que vivem em qualquer parte do mundo como por outro lado as minhas orações, obras de misericórdia, bem-aventuranças, renúncias, necessidades e sofrimentos podem ajudar a crescer irmãos nossos em qualquer parte do mundo?
Então o nosso bom Deus não poderá
fazer como aquele engenheiro químico que foi à lixeira da cidade buscar todo o lixo e o "trabalhou" (destilou e refinou) no seu laboratório até obter um produto semelhante ao combustível que faz andar os automóveis e os aviões? Por analogia, o nosso "Engenheiro Divino", não poderá pegar no lixo (moral e espiritual) que os homens produzem e que "polui" terrivelmente o mundo e a
humanidade e o "destile" e o "refine" no "SEU LABORATÓRIO" e faça desse lixo uma nova forma de energia que impulsione o mundo e a humanidade pelo caminho da libertação e da felicidade?
Quero com isto perguntar se o sofrimento humano - e o meu mais concretamente - é em vão, é absurdo ou Jesus Cristo lhe deu o sentido pascal, redentor, se suportado com amor e humildade unidos a Ele?
É verdade ou mentira que o Deus de Jesus Cristo costuma tirar o bem do mal que os homens fazem?
Deus para nos amar, criou-nos inteiramente livres e permite que sejamos "maus" (pecadores)se o quisermos ser pelo livre arbítrio, porque "se compraz" em Lhe darmos a possibilidade de usar para connosco a Sua misericórdia infinita.
É verdade ou mentira que os pecados de cada homem e de cada mulher são atentados ao Corpo Místico de Cristo, melhor dizendo, aos membros desse Corpo porque a sua Cabeça é impassível, e que perturbam e fazem sofrer os outros membros?
O nosso bom amigo Dr. Zé Dias diz acima, no contexto dos três euros, que nós, os pais, muitas vezes costumamos remover as pedras do caminho dos nossos filhos mas que isso é prejudicial para eles, com o que estou
de acordo porque desse modo não os ajudamos a crescer e a fortalecer na luta contra as dificuldades da vida. Muito certo. Então, se Deus ama os Seus filhos muito mais que qualquer pai da Terra, e que muito mais do que nós deseja que os Seus filhos cresçam e se esforcem por libertar-se dos males vencendo os obstáculos, faria Ele bem se removesse dos nossos caminhos as pedras e os espinhos? Que Deus seria esse Deus? Não seria, de certeza, o Deus do amor que nós procuramos e adoramos.
Noutro lugar o mesmo nosso ilustre e douto amigo, diz que lhe repugna aceitar que o pecado(?) da impureza (ou contra a castidade) seja referido pelo Magistério da Igreja como mais grave do que as omissões de caridade para com o próximo. Ora, sem querer questionar essa doutrina, eu pergunto: se o pecado oposto à castidade é a luxúria e vice-versa, o que é a luxúria?
Por outro lado, se a ascese cristã apela para o crescimento espiritual da criatura humana e para a sua total libertação de tudo o que a domina e escraviza e para o legítimo uso das
coisas criadas por Deus de modo que ela cresça aqui na Terra até alcançar a plena medida da estatura de Seu Filho, Jesus, pode o homem e a mulher amar a Deus e ao próximo sem que primeiro se amem a si próprios?
E para crescermos até à plena estatura de Jesus não nos será pedida a castidade antes da caridade?
Se Jesus, ao ver aproximar-se a Sua Hora, tivesse obedecido à vontade do Seu corpo e não à vontade do Pai, isto é, se tivesse feito a vontade à carne naquilo que ela Lhe pedia fugindo da agonia e da cruz, o que teria sido de nós? Ter-nos-ia amado?
Não é a luxúria uma maneira de obedecermos aos apetites do nosso corpo em detrimento do que nos pede o espírito?
Podemos nós ajudar a crescer os outros pela caridade se ainda nos sentimos bloqueados pelo apego à luxúria (sensualidade)?
Se nâo me engano, é S. Tomás de Aquino que diz que a ave tanto está aprisionada pelo laço do caçador por uma linha como pelo fio de um cordel ou por uma corda e que enquanto não se libertar dessa prisão, mesmo que seja uma linha, não pode voar.Que quereria o santo doutor dizer com isso?
E para terminar, outra questão: Será correcto falar da impureza do coração (coração impuro)simplesmente como sinónimo de luxúria ou pecado da sensualidade?
E os outros pecados, nomeadamente as omissões contra o próximo, não serão impureza de coração?
Alguns teólogos de renome dos quais cito apenas Leo Trese dizem que os pecados claros contra a castidade têm a sua origem na luxúria mas esta também produz outros, tais como falsidades e injustiças e que a perda de fé e o desesperar da misericórdia divina muitas vezes são fruto da luxúria.Ora, se as faltas de castidade derivam da luxúria e as injustiças também e se as faltas de caridade são injustiças, então um e outro pecados andarão muito longe um do outro até porque ambas - a caridade e a castidade - pertencem aos frutos do Espírito Santo.
Nos Conselhos Evangélicos Jesus não incluiu a castidade perpétua para todos os que querem "voar" mais alto?
E a pobreza voluntária implicitará que os bens a que devemos renunciar sejam dados aos pobres, ou tanto vale dá-los aos familiares mesmo que não sejam pobres desde que entremos no estado de pobreza voluntária?
É tudo. Até à próxima.
José Ferraz
Ora, as faltas de caridade não serão injustiças?

22/10/06 16:36

 

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