divórcio ou casamento eterno?...

2009-08-01

CinV (3) Homenagem a Paulo VI: Octogesima Adveniens

Bento XVI faz referência a mais três documentos de Paulo VI.
A Carta Apostólica Octogesima Adveniens (15.Maio.1971), que comemora os 80 anos da Rerum Novarum, trata sobretudo do compromisso sócio-político dos cristãos. Analisa as várias ideologias: as correntes socialistas (31), a marxista (32-34) e a liberal (35), que exigem um exigente discernimento cristão (36). Aborda o renascimento das utopias com as suas virtualidades e os seus riscos (37).
Porque insiste na ambivalência do progresso que “se tornou uma ideologia omnipresente” (41), Bento XVI destaca sobretudo a ideologia tecnocrática (CinV 8): mais à frente analizará as consequências da "mentalidade tecnicista" (70) e da "tecnicização do desenvolvimento e da paz" (71-72). Paulo VI não utilize a palavra propriamente a palavra ideologia, mas a ideia está lá: “É certo que as alternativas propostas à decisão são cada vez mais complexas; as considerações a ter em conta são múltiplas e a previsão das consequências é aleatória, se bem que ciências novas se esforcem por iluminar a liberdade nestes momentos importantes. No entanto, apesar das limitações que por vezes se impõem, estes obstáculos não devem reprimir uma difusão maior na comparticipação, na elaboração das decisões, na sua escolha e no pô-las em prática. Para contrabalançar uma tecnocracia crescente, torna-se necessário criar formas de democracia moderna, que não somente proporcionem a cada homem a possibilidade de informar-se e de exprimir-se, mas também que o levem a comprometer-se numa responsabilidade comum” (47). Por isso, continua Paulo VI, “seria bom que cada um procurasse examinar-se, para ver o que é que já fez até agora e aquilo que deveria fazer. Não basta recordar os princípios, afirmar as intenções, fazer notar as injustiças gritantes e proferir denúncias proféticas; estas palavras ficarão sem efeito real, se elas não forem acompanhadas, para cada um em particular, de uma tomada de consciência mais viva da sua própria responsabilidade e de uma acção efectiva. E por demais fácil atirar sobre os outros a responsabilidade das injustiças sem se dar conta ao mesmo tempo de como se tem parte nela, e de como, antes de tudo o mais, é necessária a conversão pessoal” (48).
Gostaria ainda de referir duas passagens pouco citadas desta Carta de Paulo VI:
- “Perante situações, assim tão diversificadas, torna-se-nos difícil tanto o pronunciar uma palavra única, como o propor uma solução que tenha um valor universal. Mas, isso não é ambição nossa, nem mesmo a nossa missão. É às comunidades cristãs que cabe analisar, com objectividade, a situação própria do seu país e procurar iluminá-la, com a luz das palavras inalteráveis do Evangelho; a elas cumpre, haurir princípios de reflexão, normas para julgar e directrizes para a acção, na doutrina social da Igreja… A essas comunidades cristãs incumbe discernir, com a ajuda do Espírito Santo em comunhão com os bispos responsáveis e em diálogo com os outros irmãos cristãos e com todos os homens de boa vontade - as opções e os compromissos que convém tomar, para realizar as transformações sociais, políticas e económicas que se apresentam como necessárias e urgentes, em não poucos casos” (4). Por esta frase se diz que esta Carta é a carta de cidadania ou de maioridade dos cristãos e das suas comunidades. O Papa não tem uma palavra única perante as circunstâncias tão diversificadas, nem sequer é essa a sua missão. É pena ser tão ignorada das comunidades cristãs e tão pouco citada pelo Magistério. Admitir que o Papa não tem uma “palavra única” não encaixa bem nas certezas curiais do Vaticano!
- “Nas diferentes situações concretas e tendo presentes as solidariedades vividas por cada um, é necessário reconhecer uma variedade legítima de opções possíveis. Uma mesma fé cristã pode levar a assumir compromissos diferentes” (50). Este pluralismo sócio-político não é um mal para os cristãos mas um bem que só enriquece o Povo de Deus e a própria sociedade. O tempo da cristandade e do “rebanho de Deus” já devia ter passado. Aliás João Paulo II diz o mesmo por outras palavras: “A Igreja não tem soluções técnicas que possa oferecer (...). Com efeito, ela não propõe sistemas ou programas económicos e políticos, nem manifesta preferências por uns ou por outros, contanto que a dignidade do homem seja devidamente respeitada e promovida e a ela própria seja deixado o espaço necessário para desempenhar o seu ministério no mundo” (SRS 41).

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