divórcio ou casamento eterno?...

2008-12-28

Festa da Sagrada Família

As Leituras da missa de hoje colocam algumas questões interessantes. Só no final, reparei que a reflexão se alongou exageradamente e devia tê-la dividido por três dias. Mas como está tudo tão ligado, fica à paciência de cada um lê-la por atacado ou não.

Em primeiro lugar, e deixando de lado aspectos teológicos e pastorais, não podemos deixar de pensar em inabilidade e até anacronismo o ter colocado como segunda Leitura aquela passagem que tanto magoa muitas mulheres: “Mulheres submetei-vos aos vosso maridos”, agravada ainda pelo complemento ambíguo, “como convém no Senhor”. De pouco adianta acrescentar: “Maridos amai as vossas mulheres”, também com um complemento tão esclarecedor “e não as trateis com aspereza” (Col 3,18-19). Esta escolha da Palavra foi feita "a alto nível" e, portanto, só pode significar que este é o sentimento dominante na hierarquia da Igreja sobre as mulheres. De pouco adianta fazer uma leitura “mulheres servi os vossos maridos”, porque efectivamente no cristianismo há uma identidade entre servir e amar. Esta análise até mais de acordo com versículos anteriores: “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente. Acima de tudo revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição” (Col 3,13-14). Mas, de repente, como se de um anacluto se tratasse, lá aparece o “submetei-vos”! Terá sido um acrescento posterior? Pouco importa. Porque são estas as palavras que hoje se proclamam nas igrejas católicas em toda a parte, pelo menos em Portugal. E, apesar de a atenção não costumar ser muita, sempre repetem uma manifesta injustiça que Deus certamente não quer, mesmo que algum seu intérprete diga que “convém ao Senhor”.

Já a primeira Leitura tem passagens cheias de sabedoria que muito se apropriam à nossa época. Num tempo, em que tantos filhos deixam os pais velhinhos nos hospitais ou os despejam em lares sem ao menos o carinho de uma visita de vez em quando, é oportuno recordar estas palavras do Ben Sirá: “Filho, ampara o teu pai na velhice e não o desgostes durante toda a vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente com ele e não o desprezes, tu, que estás no vigor da vida…” (Sir 3, 12-13). Na continuação repete uma afirmação muito forte já antes referida (“Quem honra o seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro (no céu) quem honra a sua mãe” (Sir 3, 3)): “… porque a caridade com o teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados” (Sir 3, 14).
Estas, sim, são palavras para os dias de hoje!

Finalmente a apresentação da Sagrada Família como modelo certamente nem sempre é devidamente considerada.
O Evangelho diz “pouco” sobre esta família, mas deixa muitas lições, que deveriam servir-nos de modelo. Algumas “politicamente pouco correctas”. Mas estão lá!
Como modelo, porque Deus quis fazer-se homem no meio de uma família “comum”: isto é, qualquer família está chamada a ser construtora da história e, em primeiro lugar, a ser um espaço de crescimento das pessoas, especialmente dos filhos: “O menino crescia, tornava-se robusto e enchia-se de sabedoria”. Portanto a família como espaço de crescimento físico, intelectual e sapiencial.
Maria aparece-me como modelo, porque, como já aqui referi (8.Dez), ela não era uma mulher “submissa” ao marido nem ficava fechada em casa deixando que a história acontecesse. E nisso, parece-me, contrapõe-se à segunda Leitura. Cuidava da sua missão como mulher que é mãe, mas também cidadã.
Como modelo, também José, que quase não fala e de quem quase não se fala. Mas que esteve sempre ao lado de Maria, e especialmente porque confiou na sua palavra, quando apareceu grávida: esta família é modelo confiança e apoio mútuo, mesmo em situações muito difíceis.
Para mim, como pai, também me esforço por tomar Jesus como modelo, quando aos 12 anos se autonomiza e segue o seu caminho. Esta é uma “rebeldia” que não encaixa nada bem na mentalidade de muitos cristãos. Será também aqui, para eles, a Sagrada Família modelo?
Finalmente Jesus, mais tarde é também modelo. Quando lhe disseram que estavam lá fora a mãe e os irmãos ele responde, apontando para os discípulos: “Aí estão a minha mãe e os meus irmãos, pois todo o que faz a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe (Mt 12,46-50). Também aqui temos um modelo: a família não deve fechar-se sobre si e servir de oásis para os males do mundo; deve lutar por um mundo melhor, mais justo e mais humano. Se não o fizer é uma família egoísta e falha a uma missão fundamental: “fazer a vontade do Pai”, que “quer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tim 2,4). Cada um, e não só os filhos, deve ser ajudado a descobrir a "sua" verdade, a "sua" vocação e a "sua" felicidade, que não pode ser imposta mas pode e deve ser proposta por palavras e sobretudo por actos.

Neste modelo só me fica uma mácula, que já vários amigos não crentes me atiraram à cara e aos quais não sei responder. Quando “fugiram para o Egipto”, por que não avisaram os seus vizinhos do perigo que aí vinha, ajudando a evitar o “massacre dos inocentes” que também hoje comemoramos?
E, peço desculpa, mas por favor não me venham com essa de que “tal era a vontade de Deus!”

2 Comentários:

Blogger Rom_8 disse...

Olá Zé Dias:

Uma explicação possível para a questão levantada: não tenho aqui o evangelho à mão, mas parece-me que lá não é dito que eles sabiam que tipo de perigo corriam e quem o corria (se apenas eles se mais alguém).
É perfeitamente plausível pensar que foram tomando consciência (por sinais, sonhos, o que quer que fosse) de que tinham que sair dali sem saber que vinha aí um massacre de crianças tão hediondo. Que o lugar deles não era ali e ponto final.
Alíás, Deus continua a conduzir assim o Seu povo, por sinais (e na oração), sem lhe contar todo o filme que vem a seguir.
Abraço.
OC

29/12/08 22:30

 
Blogger Zé Dias disse...

Agradeço a explicação que me parece consistente e penalizo-me de ter feito uma leitura apressada e me ter deixado influenciar pelos acontecimentos "futuros". Efectivamente o Evangelho diz: "Depois de partirem (os Magos), o anjo do Senhor apareceu a José e disse-lhe: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar" (Mt 2,13).
Obrigado,

Um 2009 e seguintes cheios de alegria, paz, amor e graça no Senhor

30/12/08 23:16

 

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