divórcio ou casamento eterno?...

2008-12-19

Manel Alegre

Assisti a grande parte da entrevista de Manel Alegre, ontem, ao canal 1. E até compreendi muito bem o seu drama, que também eu sinto na política mas sobretudo na Igreja.
Praticamente toda a gente o conhece seja pela sua poesia lida ou cantada, seja como deputado e ex-candidato à presidência da república.
Dela retirou algumas linhas de análise.
O desalento de um ambiente político sem alma onde a ideologia (e já não falo na utopia) parece ter perdido todo o seu significado, onde proliferam sucessivas versões da má moeda. Os políticos são quase sempre os mesmos. Há lobbies, muros de betão, que não deixam entrar a novidade nos partidos. Há “sindicatos” de votos, acusou ele, nas eleições partidárias. E podia ter falado dos oportunistas que estão sempre desejosos de estar perto do poder, mesmo sem merecimento.
Não está disponível para concorrer nas próximas eleições no PS. Já o fez uma vez. Mas era bom que aparecessem alternativas. De qualquer maneira fiquei com a impressão que ele estaria disponível (se houver uma “vaga de fundo”) para concorrer à Presidência da República (PR), mas não a secretário-geral do partido, que corre sempre sérios riscos de vir a ser primeiro-ministro (PM).
E aqui coloca-se uma questão interessante e crucial: a da diferença entre um e outro cargo. Ambos são de extrema importância, mas exercem-se de modo diferente. Ao PR compete zelar e garantir a constitucionalidade das nossas leis e organizações. Ao PM compete tomar decisões rápidas, eficazes e que garantam dentro do possível o melhor bem-estar para todos os cidadãos. O PR pode com “alguma facilidade” manter-se fiel aos seus ideais. Ao PM nem sempre isso é possível: ele tem de decidir condicionado pelas várias realidades, pela evolução da história, por várias soluções possíveis, nenhuma delas perfeita.
É claro que eu gostaria de ver Manel Alegre como PM a aplicar tudo aquilo que disse que devia ser feito. Também eu sonho com um governo que um dia dê a prioridade máxima aos mais pobres. A minha pergunta é se, num contexto concreto, nomeadamente de crise e de crise internacional, o próprio Manel Alegre poderia ou seria capaz de, numa sociedade, tão limitada, onde os “cidadãos” só pensam nos seus interesses imediatos e egoístas, cumprir o programa que ele desenhou com duas ou três pinceladas.
O grande drama da política é que quem não governa pode apresentar todas as soluções e as mais justas, mas quem governa têm limitações que, muitas vezes, obrigam a tomar as decisões possíveis, não as ideais. É importante não deixar cair as utopias. Mas a história ensina que essas são alimentadas e sustentadas pelos profetas. Que devem continuar a existir e a insistir no que dev ser feito. Mas quem dispõe do poder para as implementar não as implementa. Porque não quer ou porque não pode? Alguns, é mesmo porque não querem. Mas muitos, é porque não podem.
E serão as soluções mais puras e mais humanas as que melhor servem uma realidade onde há “filhos de muita mãe”? Um dia destes transcrevo um texto de um livro que estou a ler, McMáfia, que ilustra bem esta possibilidade.
Recordo que Leão XIII, embora insinuasse a necessidade de um salário familiar, não insistiu nele, porque, naquele contexto concreto da Revolução Industrial, poderia significar que os patrões, com tanta mão-de-obra disponível, escolhessem em primeiro lugar ou exclusivamente os solteiros, deixando famílias inteiras na miséria.
Tenho também verificado, na nossa Igreja, que Bispos eméritos (isto é, já não responsáveis por uma Diocese) escrevem e propõem, agora, coisas muito bonitas para a Igreja. Mas quando “estavam em exercício” não as puseram em prática. Porque não quiseram ou porque não puderam? Estou certo que foi porque não puderam. Com um povo cristão tão analfabeto e tão sociológico, posso imaginar as suas dificuldades.
Mas isso não nos deve impedir de criticar e de insistir nas utopias do Reino.
Até porque, e aqui há um contributo indispensável do Cristianismo, da Revelação cristã, todos nós, crentes ou não crentes, somos marcados tanto pela graça como pelo pecado.
A utopia, o ideal perfeito, só é realizável no Reino de Deus. Até lá cada um deve cumprir o melhor que sabe e pode a sua missão, seja ela qual for.

1 Comentários:

Blogger Manuel disse...

Caro Zé,

É com muito agrado e alegria que retornei a este blog. Já não me lembrava da pura sensação de prazer pela leitura e bem -estar intelectual e emocional de ler os seus textos.

O ser humano é mesmo especial, complexo. Existem coisas na vida, que o ser humano identifica como sendo boas, agradáveis, que fazem sentido, alegres, bem dispostas, e mesmo assim, existe uma altura na vida desses seres humanos em que eles se desconectam destas coisas da vida.

Por exemplo, o filme de HOOK, é bem ilustrativo desta situação. O Peter Pan, tornou-se adulto e como tal, não se lembra da sua infância, das suas brincadeiras, amigos, gestos, sons caracteristicos que fazia como o do galo. A nossa memória definitivamente ocupa-se com superficilidades que a nada e ninguem contribuem para a efectiva alegria e felicidade.

Bem haja!

Manuel

20/12/08 11:34

 

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