divórcio ou casamento eterno?...

2008-07-29

Luta pela justiça

É bem conhecida aquele ditado de que a quem tem fome deve dar-se um peixe. Mas o melhor é dar-lhe uma cana e ensiná-lo a pescar. A primeira fase é de mera assistência e ainda há muita gente presa a esta fase. A segunda acarreta a ideia de autonomia e desenvolvimento, sem os quais a pessoa nunca poderá ser pessoa em plenitude. E muitas instituições estão já preocupadas também com esta segunda fase, mesmo que nem sempre possam por si só resolvê-las.
Contudo, na minha opinião, falta uma terceira dimensão: é preciso não deixar poluir o rio, pois se não houver peixe de que vale a cana e o saber pescar? Ora esta terceira dimensão implica uma adequada organização social, implica a luta pela justiça.
Para enquadrar eclesialmente esta questão, é bom recordar que a missão da Igreja assenta em três funções igualmente estruturantes: profética (catequese), sacerdotal (liturgia) e real (serviço fraterno). Esta última dimensão, que as comunidades cristãs geralmente ignoram, divide-se na minha opinião em duas vertentes: uma, de apoio imediato à pessoa, a que vulgarmente se chama acção sócio-caritativa; outra, de apoio indirecto à pessoa através de uma adequada organização social, que podemos chamar compromisso sócio-político. Em qualquer caso, a pessoa é sempre o objectivo último; simplesmente os caminhos e os métodos são necessariamente diferentes nos dois casos. Gosto especialmente da terminologia dos bispos espanhóis: à primeira chamam a diakonia (serviço) da caridade; à segunda, promoção da justiça.
É assim que a luta pela justiça assume também na Igreja um papel estruturante. Aqui, e em jeito de parêntesis, devo dizer que não me revejo de todo na reflexão que Bento XVI fez sobre a justiça na sua encíclica Deus é caridade, nomeadamente no nº 28.
Seja como seja, a luta pela justiça envolve pelo menos duas dimensões eclesiológicas fortes. Vou apenas lembrá-las, recordando duas passagens de documentos oficiais da Igreja, que os cristãos em geral não conhecerão, mas também talvez não queiram saber.
No documento final do Sínodo dos Bispos de 1971 lê-se: “A acção pela justiça e a participação na transformação do mundo aparecem-nos claramente como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, isto é, da missão da Igreja em prol da redenção e da libertação do género humano de todas as situações de opressão” (JM 6).
Bento XVI não fez esta citação nem sequer chamou a atenção para ela.
Mas a conclusão evidente que daqui se tira é que não há uma evangelização autêntica sem uma assumida luta pela justiça. Aliás esta ideia é reforçada no mesmo documento um pouco mais à frente: “A missão de pregar o Evangelho requer, nos tempos que correm, que nos comprometamos, em ordem à libertação integral do homem, já desde agora, na sua existência terrena. Se, efectivamente, a mensagem cristã sobre o amor e a justiça não mostra a sua eficácia na acção pela justiça no mundo, muito dificilmente ela será aceitável para os homens do nosso tempo” (JM 36).
Na Mensagem do Sínodo de 1987 pode ler-se: “Somos todos chamados a ser santos como o Pai que está no Céu, segundo a nossa vocação específica… O Espírito faz-nos descobrir, cada vez com mais clareza, que a santidade não é hoje possível sem o compromisso com a justiça e sem a solidariedade com os pobres e oprimidos. O modelo de santidade dos fiéis leigos deve integrar a dimensão social da transformação do mundo segundo o plano de Deus” (4).
Também aqui a conclusão é clara: hoje não se pode ser santo sem o compromisso com a justiça e sem a solidariedade com os pobres e oprimidos.
A Igreja, como um todo, e cada uma das suas comunidades e dos seus membros estão a atraiçoar o Evangelho sempre que não se empenharem seriamente numa luta constante pela justiça, ou seja, “em prol da redenção e da libertação do género humano de todas as situações de opressão”.

1 Comentários:

Blogger Joao Paulo disse...

Platão, acerca da justiça, disse na Republica, que a injustiça interessava aos injustos. Gostaria que comentasse e estabelece-se relação com o mundo em que vivemos.
João Ramalho

13/8/08 13:32

 

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