Quando acabei o meu curso universitário, confrontei-me com duas
questões.
Primeira.
Se, como acreditava, Deus é o Senhor da história e quer precisar de
nós para a fazer avançar, significa isso que Deus tem um projecto para cada um?
A minha resposta era sim, baseando-me a parábola dos talentos e no facto de
cada um de nós ser único e irrepetível. Esta resposta levava a outra questão:
como podia eu saber qual era? Através de uma atitude de escuta e de busca,
procurando fazer uma leitura dos sinais dos tempos: o que via à minha volta?
Para onde me levava a minha sensibilidade? Mas tudo isto implicava um coração
livre, suficientemente aberto à palavra de Deus e aos acontecimentos para poder
aceitar o projecto de Deus para mim e pôr de lado outros projectos meus tão
legítimos mas que não eram para já o mais importante. Não era, nem é fácil: a
disponibilidade de coração implica um espírito de pobreza, uma nudez espiritual
que me deixa livre para aceitar a vontade de Deus, para dar aquele fiat (faça-se) de Maria, de Saulo/Paulo
e de tantos outros; a capacidade de escuta obriga a uma atenção redobrada à
realidade concreta e a uma avaliação dos vários sinais e gestos alguns tão
imperceptíveis que com facilidade se ignoram.
Esta é uma questão vital para poder viver o meu ser homem e ser
cristão. E é uma questão nunca totalmente resolvida e continuamente posta em
debate. Não basta ter obtido uma resposta, mas é preciso pôr-se em causa a cada
momento. Cada opção de vida depende desse ou desses projectos. tem sido, por
isso, uma das minhas maiores dificuldades.
Segunda.
A segunda questão tinha a ver com o ser cristão, com o viver cristão. Ser
cristão é o mesmo que ser (um bom) cidadão? Ou acrescenta-lhe alguma coisa?
Das leituras que fazia e dos comentários que ouvia, parecia
concluir-se que na prática o resultado era o mesmo; a fundamentação é que era
diferente. Mas eu não ficava satisfeito com tal conclusão. Até porque no Sermão
da montanha havia duas citações que me surpreendiam: “Porque se saudais somente
os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos?”
(Mt 5,47) e “Não vos preocupeis dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos ou que
vestiremos?’ Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas” (Mt 6,31-32).
Como quem diz: isso, actuar esse nível até os pagãos; dos cristãos, espera-se
mais alguma coisa. Há uma diferença qualitativa. Mas qual.
Entretanto aconteceu um episódio interessante. Tinha ido de carro dar
um passeio, quando parei numa praça onde poderia estacionar o veículo. Esperei
alguns minutos e lá apareceu um lugarzinho. Avancei. E preparava-me para
estacionar quando me apareceu um senhor que em disse: “Olhe eu já estou aqui há
mais tempo para estacionar, portanto este lugar é meu.” E continuou: “Mas,
porque sou comunista espero mais um bocado e deixo-lhe este lugar pele e alto
ara si.” Olhei para ele de alto a baixo e lá estacionei não encontrando outras
palavras que não fosse o velho obrigado. Um dos colegas comentou: “Já viram a
lata. Sou comunista dispenso o meu lugar”. Retorqui-lhe: “Quantas vezes
disseste Sou católico, portanto vou prescindir disto ou daquilo”. Fiquei a
meditar com os meus botões.
Fiquei mais atento ao Sermão da Montanha. E lá encontrei uma
passagem que passo a citar: “, (...)
Este texto não foi publicado pelo Zé Dias mas encontrava-se no computador dele ainda em forma de rascunho, na altura da sua morte. No entanto, como estava praticamente completo decidimos publicá-lo. Ficou a faltar a citação final e provavelmente a sua conclusão.